quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Exercícios Literários

Exercícios Literários



Descrição física:


Vinha na minha direção como um trem sem freios.  Grande e sólido, arfando com o esforço da corrida prolongada, olhos arregalados e a enorme boca aberta. Fiquei paralisada vendo ele chegar mais e mais perto. Negro, todo sujo de cinzas, sorrindo como se pode sorrir enquanto corre. Quando me alcançou, só tive um pensamento, “ Meu uniforme branco! Mamãe vai me matar! ”, e sucumbi ao abraço intempestivo daquela bola de pelos.

Descrição psicológica:
Jogou longe os sapatos, com raiva. O asfalto quente fritando as solas dos pés dividia a atenção com a dor. Na esquina precisou da grama como quem precisa de um abraço, e parou. O frescor debaixo da árvore acolheu toda aquela revolta. Sentada, chorou até perder o fôlego. Espalhou terra e gravetos com as mãozinhas sujas, e depois passou no rosto, enxugando nariz. “Como meu avô pode morrer no dia do meu aniversário? ”, pensou abraçando os joelhos. As folhas roçavam de leve seu cabelo embaraçado. “Como Deus pôde escolher isso para me dar de presente? ”.

Descrição de objetos para descrever um personagem:
Ele era amável, no sentido de potencialidade. Quem assim quisesse poderia amá-lo. Mas sobretudo era um recipiente, como um vaso. Um que não tivesse fundo, como um vaso sanitário, pois era depositário de queixas e lamentos, ódios e reclamações infinitas que ouvia pacientemente de todos quantos o abordassem. Um verdadeiro amigo.

Descrição de objetos:
Estava gelada, gotinhas minúsculas brotavam e escorriam ensopando tudo à sua volta. Aberta e disponível, seria de quem ali a desejasse primeiro. Aguardava na mesa em silêncio, a boca espumando, borbulhando por dentro do casco sinuoso, a cerveja.

Descrição de paisagens:
O chão de cerâmica vermelha era fresco, um alívio no dia quente. Deitar de barriga sem camisa deixava a sua pele feliz. De cima da varanda, ele podia ver todo o jardim, e o lago. Mas o que realmente lhe interessava estava no chão. Caramujos sonolentos deslizavam babando nas sombras, enquanto ouviam as cigarras enlouquecidas fazendo festa nos troncos. As pedras de cimento rústico abrigavam uma corredeira de formigas loiras que subiam nos caules dos lírios e sumiam na folhagem rasteira em alguma missão misteriosa. A grama brilhosa tinha pequenas plantas daninhas, que insistiam em desabrochar numa florzinha vermelha tão prolífica, que parecia um enorme canteiro. O curto trajeto do cimento terminava no portãozinho branco de madeira, que coberto de petúnias entrelaçadas, já não se fechava mais. Pelo vão, o último sol da tarde ondulava em sombras negras e douradas na superfície do lago. Libélulas e vagalumes coexistiam no instante onde não era noite nem dia, ferozmente caçadas por passarinhos dispostos a jantar.



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Centésimo post

Centésimo post

Daqui a duzentos anos este século vai ficar conhecido como a era da tecnologia, onde tudo começou e acabou em globalização.
Seremos lembrados assim:
Naquela época a medicina fazia avanços micromoleculares mas não sabia tratar e curar de vez a maioria das doenças. As industrias farmaceuticas empurravam durante cinco anos, novidades que adoeciam as pessoas, para depois retirarem a droga quando a reserva de mercado acabasse.
Os médicos não sabiam tratar sem invadir, causar dor, mutilar definitivamente.
Os cientistas conseguiam prever em detalhe todas as consequencias do estilo de vida do planeta, mas ninguém fez nada a respeito.
Foi o século em que mais se usou energia não renovável e mais se guerreou por causa dela.
Não houve um ano sequer de Paz Mundial. Inocentes foram queimados, decapitados, estuprados, afogados, destituídos, baleados, esfaqueados e mortos de fome e sede.
Drogadidos e o tráfico suplantaram os óbitos das casualidades de guerra em milhões. Doenças novas começaram, várias pandemias apavorantes que mal foram controladas. Pessoas morriam sangrando por todos os orifícios, sendo devoradas por fungos e bactérias. Os vírus brincavam de mutação e resistência impedindo a produção de vacinas eficientes.
Empresas começaram a dominar as fontes de agua e comida limpa. E as corporações passaram a patentear o DNA de sementes e tudo que pudesse gerar direitos autorais ou de patente.
A fome da maioria não foi suficiente para mudar as politicas dos  governos. E logo a sede da maioria passou a colher o mesmo fracasso porque a água potável acabou. Passou a ser vendida a preços exorbitantes em garrafas e galões, sendo o principal mecanismo que levou à neo escravização de grupos carentes.
Era o mundo onde um por cento da população detinha noventa e nove por cento da riqueza. Um mundo seco com climas extremos, sem comida, cheio de gente doente enlouquecida pela miséria e inspirada por fanatismo politico e, ou, religioso cometendo todo tipo de desatino em nome da carestia e de crenças distorcidas pelo meio.
Um tempo em que a vida humana valia tanto quanto o desejo e o discernimento do próximo, onde a corrupção travestida de iniciativa drenava a miséria a goles largos na loucura do parasita que mata o hospedeiro.
Gerações de ególatras aproveitaram o espetáculo para ganharem qualquer coisa ainda que à custa do alheio e até dos próprios valores pessoais atropelando a fila, deixando para trás sua própria alma.
A globalização nada democrática da pobreza, da carência, da desonestidade sem culpa, do espírito predatório e belicoso, do cada um por si e o resto que se dane, dos quatro cavaleiros do apocalipse: a fome, a peste, a guerra e morte, que abraçou o planeta subjugando o espírito humano.
A grande diferença desta era, é que o que antes só alcançava meia dúzia depois de semanas a cavalo ou a pé, fosse bom ou ruim, passou a surpreender em horas o planeta todo.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Bombom de Uva

Bombom de Uva






Meu marido odeia. Diz que é o cúmulo da enganação. Fica lá na bandeja camuflado de chocolate, tentando o indivíduo. Mas quando a gente morde, dentro tem uma coisa mole, meio azeda e com semente. Nada de trufa, brigadeiro, licor ou doce de leite.
Pessoalmente não odeio mas também não como. Foi banido da mesa de doces no nosso casamento.
Outro dia estavamos conversando sobre como as aparências enganam, em todas as instâncias. De gente, a bichos e coisas.
Tem muita gente e também situações "bombom de uva". Virou piada interna. Agora quando  queremos trocar uma idéia sem ventilar no ambiente, dizemos: -É, esse é um "bombom de uva"!
Um bom exemplo são as reuniões de Condomínio no Prédio, puro "bombom de uva". Chamam os apartamentos para votar em incríveis melhorias, e quando a pauta é lida, só tem demanda do interesse de meia dúzia de apartamentos que querem o financiamento do resto do prédio.
Outra situação é aquela pessoa fofinha que faz favores sem que você tenha solicitado, porque já sabe como vai cobrar depois.
Não compro, não faço e não como "bombom de uva", nem que tenha que empalar todos com um palito até achar o chocolate de verdade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Imunidade?

Imunidade?


Nasci com a minha toda errada e só foi piorando com o tempo.
O resultado disso é que agora eu tenho que domesticar essa entidade incorpórea que me assombra.
Chegou ao ponto de ter que suprimir, controlar, modular, colocar de castigo, tirar mesada, colocar senha no wifi,  mas nada esta adiantando.
Sutilmente o meu proprio sistema de defesa me detonou tanto que nem consigo raciocinar direito e me ajudar a sarar. Até o meu cérebro esta perdido na neblina.
Meu sistema imune é um antivírus enlouquecido. Está me formatando.
Quando Deus distribuiu fichinhas de Doenças Raras no período pré-encarnatório, eu cheguei antes, dormi no balcão pelo menos uma semana e fiquei com todas. Arranquei a página de Reumatologia do Cecil ( livro de Medicina Interna) e usei como menu. Quero essa, essa, essa aqui também.
Mas resolvi falar das maravilhas de ter uma Doença Autoimune ao invés de reclamar.
Pra começar é rara, e cara. Carésima, remédios que só vendendo o carro pra pagar. Só pra quem pode, morram de inveja.
Sempre inclui Corticosteróides na receita, e em grandes doses. Minha pele esticou tanto nas bochechas que não tenho flacidez nem rugas, e  não vou precisar de cirurgia plástica.
Também economizo no blush já que estou sempre com um tom vermelho no rosto.
Mudei de manequim pra maior e menor oito vezes em um ano. Agora tenho o guarda roupa mais eclético, variado e atualizado do que nunca. Varia de vestidinhos tubinho justos, a calças de malha para grávidas. Até meu pé mudou. Ficou tão inchado que aumentou um numero.
Se eu não adorasse sapatos, estaria reclamando. Mas tive que repor o estoque alegremente.
Eu era perfeitamente normolínea, simétrica e proporcional, agora sou maior em cima do que em baixo, dois manequins diferentes. Não vou precisar colocar silicone.
Não ter mais cintura é um mero detalhe, economizo nos cintos.
Mas legal mesmo foi o que aconteceu com meu cabelo, cortesia dos quimioterápicos.
Meu cabelo era liso com algumas ondas suaves, cheio e comprido. Caiu pra caramba.
Caiu tanto que achei que ia ficar careca e comprei duas perucas diferentes por prevenção.
Descobri que peruca é horrívelmente calorenta e me faz chorar de rir. Não consigo colocar uma e ficar séria. De verdade. É como se eu estivesse fantasiada. Mas agora sou proprietária de uma loura e uma morena. Se eu tivesse que usar, só ia sair de crachá porque todo mundo ia achar que meu marido estava tendo um caso.
Como meu cabelo não caiu o suficiente, só cortei bem curto e passei uma fase lidando com os "Crop Circles" que insistiam em aparecer de manhã cedo e sumiam com caçambas de agua e gel.
Depois de dois anos cresceu um pouquinho,  e ai pude constatar que meu cabelo não é mais liso. É crespo!
Passei minha infância fazendo cachinhos só para vê-los se desmancharem assim que eram soltos. Mas agora que a ditadura é a chapinha, modelador e outras violências capilares, eu possuo cachos indomáveis. Antes de morrer comida por meus anticorpos vou realizar meu sonho de criança: cachos!
Outro bônus imperdível é a depilação. Quase não faço, os pelos demoram tanto pra nascer e nascem tão fraquinhos que basta um olhar feio e eles desaparecem. A tintura no que restou de cabelo é quase permanente. Dura uma eternidade. Economizo no salão.
Economizo nas unhas também. Estão tão moles que não crescem e nem podem ser pintadas.
O incrível é que como a destruição ocorre de dentro pra fora, ninguém acredita que que você está realmente doente. Pensam que você colocou enchimento no sutiã, mudou o cabelo, exagerou no blush, está gravida de alienígenas, e até que é outra pessoa. Semana retrasada minha vizinha me perguntou se fazia tempo que mudei pro predio.
Outra vantagem é que só posso usar produtos cosméticos e de higiene hipoalergênicos  de altíssima qualidade, com Ph controlado, neutro. Coisa chique!
Sol, calor, frio , umidade e vento nem pensar! Sou uma Avenca! Meu ambiente é controlado!
O cara que veio limpar o ar condicionado split do meu quarto disse que foi soldado no quartel onde torturavam presos politicos durante a ditadura. Ele passou três dias entre o telhado e a varanda do meu quarto dissertando sobre os detalhes impensáveis de coisas que eu nunca perguntei.
No ultimo dia ele olhou bem pra mim e perguntou: -A senhora é doente?
Nada como um olhar de especialista não?

domingo, 9 de março de 2014

Guichês

Guichês

Anfiteatro lotado. Almas de todas as raças, credos, e lugares apinhando os degraus, vestindo camisolas brancas, seguram um papelzinho na mão.
Lá em baixo no centro um sujeito luminoso sentado opera duas gaiolas esféricas com bolinhas e um disco rotatório com um ponteiro em cima de uma mesinha.
O luminoso pega o microfone e canta: -Número 546.378.965 !
Berra: -Re-pe-tin-do! -Número 546.378.965 !
Todo mundo conferindo numero por numero cuidadosamente, até que um sujeito magrelo e desajeitado levanta de má vontade e ergue o braço: -Eu! Eu!
O luminoso com pouca paciência: -Desce amigo! Tem que descer aqui!
O magrelo vai se esquivando degrau por degrau ziguezagueando no tumulto de gente sentada, até entregar o papel para o luminoso.
-Olha só amigo, antes de mais nada você vai ter que rever uns pedaços importantes das suas vidas passadas, é rapidinho que o editor aqui é fera. Coloca aqui este óculos 3D e os fones de ouvido. E grita: -Ô da mídia, pode rolar o VT ai!
De óculos o magrelo vê a invasão Mongol. Ele esta no meio, vê uma estátuta de Buda, tira o spray da sacola que esta no cavalo e pinta o Avatar de rosa. Depois ele é um Romano no Monte Calvário, Jesus esta morrendo na cruz, ele pega o chiclete de tutti frutti que esta mastigando e prega na cruz. Agora ele é um Cruzado pobre a pé, empurrando uma carroça, e ao passar pelo túmulo do Profeta Maomé, aproveita pra fazer um xixi atrás da pedra. Na França Vitoriana ele faz parte de um jogo com Tabua ouija. Usando os pés por baixo da mesa ele bolina as pernas das senhoras presentes que acreditam ser um espírito. Na Bahia, ele esta voltando pra casa e ao passar por um encruzilhada vê lá um banquete: cachaça, farofa, charuto, frango assado e até pudim de leite, não aguenta e come tudinho.
O luminoso interrompe: -Tá bom né Número 546.378.965? Chega? Já entendeu?
Magrelo com cara de abobado:- Não senhor.
Luminoso: - Por isso que é repetente. Vamos sortear os numeros da primeira gaiola. E ele roda, roda, lá dentro tem cinco bolinhas só. Céu, inferno, purgatório, reencarne, descriação.
Pinga a bolinha do reencarne.
Magrelo:- Ai meu Deus de novo não!
-Deus esta de folga, nem adianta chamar. Ordens são ordens.Vamos rodar a segunda gaiola, lá dentro tem seu gênero. Estamos democratizando e adotamos o sistema do Facebook então tem mais de cinquenta opções fique tranquilo.
O magrelo cruza os dedos, fecha os olhos e sai a bolinha do bitransneutrosexo fluido.
-Hã? Mas tem isso? que é que eu vou fazer examente? vou namorar com quem?
Luminoso dando de ombros: -Ah mas esta é a beleza da Democracia Divina meu filho! Quem define é você. Agora vamos pro disco da sorte. Você sabe né? Cada risquinho é uma localização geográfica no Planeta Terra.
Magrelo roda e pensa com força torcendo: Suécia, Suécia Suécia!
O ponteiro para em Bangladesh. O magrelo cai duro para trás. Os irmãos se juntam para acudir.
-Toma uma água com açúcar meu filho, nestes casos pode rodar mais uma vez que a gente dá esta chance.
E lá vai a alma esperançosa rodar a sorte do país. Somália. Ele desmaia outra vez.
Sai de padiola levado pelos outros irmãos de branco.
Quando acorda, esta na recepção de uma sala enorme cheia de guichês e cadeiras de espera. Montes de pessoas formam filas. Uma irmã luminosa muito solícita pergunta: -Em que posso ajudar?
-É que eu vou reencarnar na Somália e acabei desmaiando, acordei aqui e não sei o que fazer.
-Ah mas é claro, aqui estão os folhetos de instrução pode sentar, dar uma lida e depois escolher os guichês. É como no rodízio quando o senhor preenche aquela ficha com o que vai querer. Coloque o número dos guichês escolhidos quantas vezes quiser. Não tem limite para o que escolher receber. Depois o senhor entra na fila de cada guichê escolhido para carimbar sua escolha. Só depois o senhor será encaminhado à repartição da escolha de mães e pais ok?
-Sim senhora.
Magrelo olha em volta e não entende nada. O letreiro dos guichês tem um número e coisas escritas em Somali. Alguns tem tanta fila que tem até senha, muitos estão completamente vazios e outros quase vazios.
Ele resolve não perder tempo. Evita os guichês com filas, e entra nos quase vazios.
Os atendentes não podem questionar as escolhas, mas olham espantados para o folhetinho dele e carimbam, carimbam, carimbam até cansar.
Rapidinho o magrelo se manda pra sala de escolher os pais pensando: "Me dei bem. Imagine ficar dando volta em fila com senha na mão. Sai rapidinho de lá, vou pegar os melhores pais"
Na sala do parentesco ele é recebido por um irmão que lhe apresenta fotos, e uma pequena biografia de seus pais. Não tinha nenhum casal rico, nem muito bonito, nem supersaudável, nem megainteligente. Então ele
escolheu uma mãe que pareceu boazinha.
Nasceu de sete meses, pobre, feio, doente, magrelo, numa maloca miserável cheia de gente, no meio de um tiroteio.
Inconformado ele pensa com força -Ó Deus que eu fiz pra virar parar aqui?
Deus responde: -Escolheu os guichês errados meu filho!
Magrelo: -Mas eu não leio Somali!
Deus: -Assim funciona o Karma! Posso fazer nada não! Perdeu irmão, perdeu!


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Porta retratos

Porta retratos

Minha mãe coleciona. Ela mora numa casa enorme que é como uma galeria de gente. Tem porta retratos de todos os entes queridos em todas as fases da vida em todos os comodos exceto cozinha e banheiros.
Tem fotos da família espalhadas fora dos porta retratos também.
Ela preenche a casa vazia com nossas fotos, e aquece o coração.
Passei uns dias por lá, e foi como um flash back da minha própria vida só de andar pela casa.
Eu bebê, eu pequena, eu garota, eu mocinha, eu moçona, eu com ela, eu com meu pai, eu com meu marido, eu com meu filho, minha avó, meu irmão, meus sobrinhos e até com minha cunhada. E também eu sozinha.
Dezenas de eu sozinha. Entre os 25 e os 40 anos não se sabe a diferença. Mesmo morena ou loira, continuei com a mesma cara. Euzinha, bem na foto, sem idade definida.
Mas de um par de anos para cá eu mudei. Fiquei irreconhecível. Não por causa dos fios brancos, estou loira como era aos 37anos. Nem minha tintura pra cabelo mudou.
Acho que em cinco anos envellheci quinze. Como o "Retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde.
Não fiz pacto com diabo nem nada. Pelo contrário, foi minha vida super saudável que me trouxe uma coleção de doenças que parece aquelas bonequinhas russas Matrioshkas que ficam uma dentro da outra. Todo ano tenho uma nova embutida na antiga.
Nunca fumei, não bebo, como coisas saudáveis e antes de ficar completamente impossibilitada fazia exercícios regularmente. Agora nem sol posso pegar. Nenhum, virei vampiro. Derreto no sol.
Meu excesso sempre foi de trabalho e preocupação. Motivo pra ficar triste de sobra.
Como não sou vítima de nada, fui dando conta de tudo e gastei a boa aparência nas agruras da vida. Mas estou viva. Se eu fosse gato estaria já na décima segunda vida. Nem sete nem nove. Umas doze.
Voltando aos porta retratos, nenhuma mulher sabe o quanto é bonita até ficar mais velha. Ou doente. Ou os dois.
Não vou pedir pra minha mãe recolher aquelas fotos que me fazem lembrar como eu era. Vou amar a criança fofinha e a moça bonita que eu fui como filhas que nunca crescem nem adoecem, e muito menos envelhecem.
Vou tirar uma foto agora e colocar no meio das outras. Vou fazer isso todo ano. Atualizar.
Vou amar todas as mulheres que eu fui, sem inveja delas.
E lembrar que nunca eu estarei melhor do que agora, e me amar como estou hoje, cheia de gratidão.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Religião

Religião

Não pertenço à nenhuma. Tenho a minha. Não sou agnóstica nem atéia. Sou pró Deus.
Passei anos procurando uma pronta. Não deu certo. Fui nas mais tradicionais sem sucesso.
Toda vez que começava a frequentar alguma, começava a ter problemas com as "autoridades" locais.
Como? Fazendo perguntas que ninguém queria responder, apontando hipocrisias, criticando dogmas e paradigmas. Comecei a achar que eu era problemática, que tinha problemas pra adorar a Deus em grupo.
Até que recentemente minha vocação para estrepe me tirou das mãos de um culto. O guru me chamou de encrenqueira em alto e bom som. E eu pensei "Hmmm, isso é curioso. Não querem responder perguntas, não acham que precisam explicar nada, acreditam que podem me dizer o que fazer e como. Pedem dinheiro na cara dura. Estou fora.".
Percebi que o problema não é a religião. O que estraga tudo é que o canditato a atravessador de Deus é humano e portanto imperfeito. Como vou seguir diretrizes que passaram por um filtro tão parcial? Como vou seguir um sacerdote que não faz o que prega? Como vou respeitar alguém que não enxerga os próprios defeitos? Não aceito menos que a perfeição em alguém que se arvora em ser representante de Deus junto aos homens. Ou seja, não existe uma religião pronta boa pra mim.
Decidi não procurar mais nenhum grupo. Vou criar minha própria igreja, meus rituais, meus códigos e sacramentos, compor meus hinos de adoração. Vou ser sacerdotisa e minha única seguidora.
Deus há de falar comigo como vem falando há tempos, sem intermediários. Vou continuar acumulando conhecimento e transformando em Sabedoria segundo meu próprio discernimento. E se eu errar, vou aprender com a experiência. Vou fazer a caridade que eu quiser, como e onde eu quiser.
Vou cobrar dízimo de mim mesma e vou usar pra visitar meus locais sagrados.
E quando eu morrer terei escolhido o que vou encontrar do outro lado, e sei que não vou me desapontar.
Afinal de contas, para que Deus se daria ao trabalho de estar em cada um de nós se não para contato direto.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Meu primeiro diário

Meu primeiro diário

Começou num caderno de "Economia doméstica" que ficou pela metade seja porque a professora da matéria sumiu ou sumiram com ela, ou eu matei as aulas ou a professora, não sei. No final da ultima coisa que eu copiei da lousa ou da Enciclopédia Barsa, tanto faz, eu escrevi: "Sem comentarios, não dá".
Eu ainda não tinha quinze anos. Tinha uma caneta tinteiro de estimação, e nas noites calorentas e aborrecidas eu escrevia qualquer abobrinha que escapasse do meu senso crítico. Assim, na pura liberdade de expressão. Ninguém ia ler mesmo.Quero registrar aqui uma "pérola" de adolescente dentre tantas que colhi ao reler o caderninho de capa dura todo desenhado, rabiscado, escrevinhado. Depois de muito reclamar do tédio, dos idiotas, do calor e da ignorância humana eu escrevi : "Eu sou um problema cercado de ajuda por todos os lados".


Este desenho de Lavina Verdolaga parece ter sido feito sob encomenda para este texto pois acrescenta de forma visual o que esta implícito. O olhar ansioso perdido no horizonte, cercada pela ajuda em que quase me afogo a cada nova maré alta. No dia em que quebrei este paradigma deixei de ser um problema. Pelo menos pra mim. Nada sei com relação aos outros.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A bota

A bota

De neve. Com pelo de carneiro por dentro.
Meu marido que nunca me pergunta o que vestir e reclama quando peço pra se trocar, veio pedir opinião.
-Levo ou não levo a bota?
Eu pensando no peso dela, na trambolhice dela etc, fiquei na dúvida.
-Não sei, se não usar vai ser chato de carregar na mala. Mas se nevar vira tudo uma laminha nojenta e seu sapato social fica só na meleca, e molhado.
-Levo ou não levo?
Não querendo assumir essa responsabilidade e ouvir alguma reclamação depois, disse:
-Sei lá! E sai de fininho.
Ele levou. Choveu, nevou, elameou. Fomos num parque e ele ficou de fora porque estava de sapato social.
No dia seguinte viajamos para um castelo no campo e ele ficou na duvida se ia de bota: -Vou de bota hoje?
Eu:- Acho que vai ter laminha melequenta, mas não sei se vai ser um problema.
Ele:-Você não me respondeu. Vou ou não vou de bota?
E eu pensando na possível reclamação, só porque sugeri pra ir ou pra não ir. E se depois algo der errado? Respondi cheia do Espírito Santo: -Sei não...
-Fala ai! Vou ou não vou?
-Não vou falar, olhe pra fora e decida você mesmo!
Acho que estava inspirada. Ele vestiu a bendita bota. Decidiu sozinho. Pegamos o onibus e tal.
Assim que começamos a subir a pé pela entrada do castelo, ouvi "RRRRRROOOOOC!"
A sola do pé direito da bota dele descolou inteirinha. Agradeci ao meu anjo da guarda pela dica da boca fechada.
Uma japonesa idosa soltou uma risada histérica, do tipo:- Hiihihihihihihi! e o resto do grupo, abriu a boca pasmado:- Ohhhhhhhhhhh! Exceto pela velhota maluca, todos ficaram consternados.
Marido encarnou um troll. Estava com sangue nos olhos e fumaça nas orelhas.
Eu disse: -Deixa chegar lá em cima, eu peço fita adesiva e conserto pra você.
Ele jogou a sola descolada pra longe. Fui lá e catei com toda paciência.
Bem no portão, já conseguimos um rolo com o pessoal da manutenção e amarramos a sola de volta na bota o melhor possível, porque não tinha muita fita.
Mesmo assim a ponta da bota ficou com lábios. Estes faziam "blblblblbl" quando ele andava.
Então ele passou a arrastar o pé direito todo colado e resmungar irritado a cada passo.
Juro que não sabia se eu ria ou chorava, então tive que elevar o espírito e  manter a calma.
Claro que ele ficou mais lento, e acabou perdendo muito do tempo da visita ao castelo.
Quando conseguimos chegar no Coffee Shop já estava na hora de voltar para o onibus.
Ele estava tão bravo que resolveu comprar café mesmo assim, atrasado, correndo o risco de ser deixado pra trás. Eu e meu filho corremos na frente para implorar ao motorista do onibus para esperar por ele.
Alguns minutos depois ele desceu pelo caminho ladeado de sebes bem aparadas parecendo o Jack Nicholson no filme "O Iluminado". Mesma expressão facial, mesmo andar arrastado, mesmo cenário.
Só faltava a machadinha. Ainda bem que os japoneses se atrasaram mais do que ele.
Depois fomos almoçar em uma cidade medieval. Creiam, marido andou a cidade inteira para achar uma loja de sapatos e jogar a bota fora. Ô dó. Mancou daquele jeito o dia todo com um humor de cão.
Colocar o sapato novo ajudou um pouco a mudar o clima, mas não ficou cem por cento.
Quem já não perdeu uma sola, quebrou um salto ou arrebentou uma correia do calçado que atire a primeira pedra. Eu mesma, descolei parte da sandália andando no Shopping outro dia.O segredo é não perder a diversão e nem cair da pose.




terça-feira, 16 de julho de 2013

Ataques de riso

Ataques de riso

Melhor coisa do mundo. Melhor ainda se tem companhia e não ofende ninguém.
Só acontece quando almas se entendem tão bem naquele assunto que dispensa comentários.
É quase íntimo demais. São Fígados afins desopilando juntos, ao mesmo tempo.
Tem aquele segundo de cansaço, de dor nas bochechas, caimbras na barriga que faz a gente parar.
E depois trocamos olhares e caímos na risada de novo. Muitas vezes, até o esgotamento.
No meu cérebro o ataque de riso esta arquivado junto com sorvete cremoso italiano, sonhar que estou voando, e perfume de Lírio do Vale. Libera as mesmas endorfinas.
Tem pouca gente com quem consigo compartilhar um ataque de riso.
Mas são aquelas que estão sempre comigo mesmo quando estão muito longe por muito tempo.