sábado, 5 de dezembro de 2009

Sinais do Natal





Sinais do Natal(este post tem 8anos)

Eu sempre fui uma pessoa natalina animada. Tinha que brigar pela decoração porque meus pais achavam trabalhoso montar tudo aquilo.
Quando me mudei pra meu próprio apartamento fiz questão de ter uma àrvore grande cheia de bolas , guirlanda, anjos e luzes de pisca-pisca. Mas desde que fiz algumas cirurgias fiquei com dificuldades físicas pra montar e desmontar tudo e acabei me limitando a alguns enfeites pequenos.
Com o tempo fiquei desanimada e sem vontade alguma de arrumar a casa pro Natal. Tédio puro, mais a falta de motivação pessoal. Nem sabia se ia ficar viva, estive muito doente.
Nesta sexta eu peguei a estrada na madrugada, e ia muito distraída quando vi ao longe algo parecido com uma nave do filme “Contatos imediatos do terceiro grau”. Era um pedágio circular coberto de luzes natalinas que piscavam.
Mas a grande surpresa era a carreata com três caminhões da Coca Cola decorados em vermelho com milhares de luzes vermelhas, e mais à frente uma perua Paraty decorada do mesmo jeito com o Papai Noel em cima. Foi simplesmente lindo ver aquilo contra a escuridão da estrada, e o pedágio iluminado ao fundo. Recebi como um presente para os olhos e o coração.
Mais adiante passei por um posto de gasolina todo apagado e fechado mas com pequenas luzes cobrindo completamente o tronco de todas as arvores ali, sob a copa escura.
Logo depois vi um lago artificial de uma empresa. Tinha luzes brancas formando cristais de neve gigantes que se refletiam na água. Lindo demais!
Engraçado, mas meu espírito natalino começou a ser ressuscitado de uma forma que nenhuma decoração de shopping conseguiu.
Até a árvore de natal da Lagoa Rodrigo de Freitas me pareceu ainda mais bonita do que da primeira vez que a vi.
É tocante ver as pessoas comuns manifestarem sua alegria por esta festa através do pisca-pisca na porta de casa, guirlandas, e enfeitinhos no trabalho.
Cada um dizendo á sua maneira:
-O Natal ta chegando. Eba!
Meu filhote na noite de natal sempre dorme na casa da avó que tem até lareira e chaminé pro papai Noel descer. Hoje em dia minha mãe enfeita até o lavabo por causa dos netos.
Não sei dizer se vou conseguir montar a parafernália a tempo, porque ainda esta tudo encaixotado. Mas com certeza meu espírito vai apreciar cada expressão do Natal de um modo diferente e mais alegre, simplesmente porque este ano uma velinha se acendeu no meu coração e consigo enxergar um futuro pra mim.




Desde então, nestes 8 anos já passei Natais difíceis e Natais maravilhosos, mas todos enfeitados.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Fios de Prata




Fios de Prata



Outro dia passeando pelas lojas fiquei encantada com um vestido longo lindo.
Era azul índigo bordado em fios de prata.
Apesar de tudo era simples, mas perfeito para usar num domingo, pensei comigo.
Dia do primeiro raio cósmico. Comprei.
Subindo sozinha no elevador sob a cruel luz fria e de frente para o espelho, vi meus cabelos: Raízes escuras nascendo sob o loiro.
Saudades dos meus cabelos escuros. Não davam trabalho antes de aparecerem os brancos.
Tive tempo de chegar mais perto e examinar com calma o cabelo crescido.
Foi só aí que vi a beleza dos fios de prata brilhando em meio às raízes escuras, exatamente como no meu vestido.
Fiquei muito emocionada e agradeci a Deus que em tudo pensa.
O tempo nos tira o frescor da juventude, a firmeza da pele, o brilho dos olhos, mas nos acrescenta um glamour todo especial.
Suaviza o rosto com fios prateados!
Mal posso esperar para ostentar cabelos completamente brancos.
Quero que o tempo me enfeite com uma brilhante cabeleira cor de prata!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Telefone sem fio



Telefone sem fio



É o pesadelo da casa.
Toca e ninguém sabe aonde direito.
Sai todo mundo correndo pelos cômodos, andar de cima, andar de baixo até achar...ou não. Isso também é válido para os cinco aparelhos de celular que coexistem num lar de três pessoas. Quando estão desligados, nem dá pra localizar ligando. Aí só esperando que eles voltem das férias no universo paralelo onde se meteram.
Minha luta incansável é para que botem o aparelho sempre na base. Até porque ele descarrega. Mas quem atende, sempre larga em qualquer canto até ele sorrateiramente sumir, geralmente no sofá.
É, no sofá junto com os dois controles remotos da TV. Ali some tudo.
Quando preciso já saio desmontando as almofadas e puxando a manta.
Caem coisas de todo tipo. Tesoura, papel de bala, lenço de papel assoado, um pé de meia, pipoca velha, bonecos de plástico, caixa de CD, chave de fenda...
Mas nem sempre acho os telefones. Encontro até mesmo verdadeiras preciosidades como o recibo da declaração do imposto de renda que estava na escrivaninha, ou mesmo um chiclete embalado e na validade.
Às vezes eu fico pensando que o sofá é o spa das utilidades domésticas.
Com suas dobras convenientes, oferece conforto e anonimato para descanso prolongado longe das tomadas e plugues. Em troca o sofá-spa é pago em restos de comida que digere lentamente.
Afora isso, contamos também com o elfo doméstico, aquele serzinho que mora nos cantos escuros e que adivinha o que você vai precisar, e corre na frente pra sumir com o objeto. Que aliás reaparece em outro lugar quando você não precisa mais dele.
Quem tem dois homens em casa como eu, sabe que eles nunca acham o que procuram. Mesmo que a tal coisa esteja exatamente onde você disse.
Ou seja, mesmo sem a ajuda do sofá e do elfo eu sou a procuradeira oficial de coisas na casa. Porque eles nunca acham nada.
E minha frase preferida é...-Tá vendo aí? Se fosse uma cobra te mordia!

O amor é cego





O amor é cego



E é! Totalmente cego. Nem é por causa daquele ditado “Quem ama o feio, bonito lhe parece!”. Porque quem ama pode até nunca ter visto seu objeto de amor e amá-lo assim mesmo.
Tem a historia mitológica de Eros e Psiquê. Ambos lindos, perfeitos, incríveis. Eros o belíssimo deus do amor vê Psiquê lindinha, e se apaixona por ela, sem que ela o conheça. Vai e pede sua mão em casamento com a condição de que ela nunca tente ver-lhe o rosto, e ela concorda. A mãe dela não gosta da idéia mas eles fogem assim mesmo.
Eles se casam e são muito felizes apesar de só se encontrarem de noite e no escuro. As irmãs de Psique com muita inveja dela, começam a dar palpites e sugerir que ela o veja de qualquer jeito quebrando a promessa que fez.
Psiquê com medo de que o marido seja muito feio e movida pela curiosidade, cede à tentação e quebra a promessa, acendendo uma luz no rosto dele. Eros cumpre sua ameaça de noivado e abandona a esposa que fica atordoada com a beleza do marido, ao mesmo tempo em que se descobre sozinha. Ela chora um rio de lágrimas e incomoda todos os outros deuses com pedidos de intercessão junto a Eros, mas ele não volta atrás. A única que lhe dá atenção é uma deusa que promete ajudá-la, caso Psiquê vá fazer uns serviços pra ela lá nos quintos dos infernos. E a boba vai, sem saber que a intenção da outra era deixar o maridão dela viúvo.
Nossa tolinha de miolo mole e Maria-vai-com-as-outras padece tanto nas terras de Hades, que o próprio Eros não suporta vê-la daquele jeito e a resgata das sombras, perdoando tudo. O final é feliz com os dois se amando muito à luz do dia, e a deusa malvada se rasgando toda de raiva.
Podemos tirar um montão de conclusões daí:
1- Eros queria ser amado pelo que era e não por sua beleza
2- Eros fez uma exigência desnecessária uma vez que ela já tinha topado casar com ele sem saber que ele era o deus do amor e, portanto já o amava.
3- Eros se deu mal, pois teve que cumprir uma promessa que o fez sofrer
4- Psiquê descobriu a duras penas que não devia ouvir palpites dos outros no seu relacionamento e que devia cumprir suas promessas.
5- Psiquê entendeu porque a curiosidade matou o gato
6- Psiquê quase se estrepa indo parar no antro da morte pra provar seu amor
7- A mãe de psique fala mil vezes que sabia que ia dar nisso e culpa o genro
8- Eros tem que engolir em seco e voltar atrás pra salvar aquela que ele ama
9- Psiquê entende que se conselho fosse bom a gente vendia, e saca o plano da deusa malvada
10- A deusa malvada se odeia por ter colaborado pra reconciliar os dois, e percebe que não adianta opor-se à vontade do chefe (ZEUS)
11- Eros se toca que podia ter sido tudo bem mais fácil desde o começo
12- Psiquê finalmente larga de ser tão inocente

Bem, eu me sinto um pouco Psiquê, pois me encanto com o conteúdo de pessoas que nunca vi, e que nem sei como são. Já fui raptada, e embora tenha cumprido todas as minhas promessas, também andei pelo vale da sombra e da morte, e fui resgatada. Faria tudo de novo. Valeu a pena. Apaixonar-me sempre valeu a pena.

O Anjo

O Anjo






Foi nos idos de sei lá quando. Foi muuuito tempo atrás mesmo. Eu era garota e estava ouvindo uma musica chamada “No promises” do conjunto Ice House. Tinha me arrebentado de trabalhar e já era tarde da noite. Estava de camisola com os cabelos molhados, e ouvia esta faixa nos fones de ouvido com os olhos fechados. O cantor estava no primeiro refrão “No promises...wherever you go...”, quando eu me vi em outro ambiente.
Primeiro notei o chão negro de granito, espelhando debaixo dos meus pés um pedaço do céu. Tinha a impressão de estar pisando nas nuvens. Depois vi um arco aberto na parede da sala redonda e escura, que mais parecia a de uma torre antiga.
Do lado de fora deste arco havia uma pequena plataforma em meia lua sem balcão, que se projetava da parede da torre em direção ao nada. Não havia chão, só o céu com nuvens de algodão em todas as direções, e muita luz. Eu não localizava o sol.
Ainda do lado de dentro da sala redonda, eu me aproximei do arco e parei a poucos passos daquela abertura celeste. Foi então que o vi.
Ele veio descendo verticalmente do lado de fora, e vi primeiro as pontinhas de suas imensas asas roçarem o chão. Tinha mais de dois metros de altura.
Era um anjo com aquele rosto quase feminino de tão bonito, mas com uns olhos verdes expressivamente masculinos e intensos. Tinha cabelo curto, cacheado, loiro, como nas figuras de calendário. E era enorrrrrmmmee.
Pairou por sobre a plataforma em meia lua, do lado de fora do arco e estendeu a mão esquerda por sob o arco me convidando a atravessá-lo.
Coloquei minha mão direita sobre a palma estendida dele e senti como se uma corrente elétrica subisse do centro da minha mão em direção ao coração e se distribuísse pelo meu corpo todo. Neste exato momento eu flutuei uns dez centímetros acima do chão. Ele segurou firme e me puxou em direção a ele como se eu estivesse dentro da água. Deslizei suavemente por sob o arco e me vi nos braços do anjo em pleno céu.
Ele me segurava como um par de dança e rodopiava nas nuvens ao som de uma música que já não era mais a que eu estava ouvindo nos fones, mas que se parecia com ela.
Ele dançou comigo durante algum tempo, olhando bem dentro dos meus olhos. E ai disse:
-Você sabe que sou um anjo não?
- Sei, claro...
-Você sabe que os anjos são vasos do Senhor?
-Como assim?
- Nós somos mensageiros do Senhor, levamos mensagens e sentimentos necessários aos seres humanos. Mas não temos sentimentos mundanos próprios, só os Divinos, e cada um têm sua especialidade como amor e compaixão. Somos vasos para contê-los.
- Entendi...(eu estava embasbacada ainda)
- Eu preciso da sua ajuda...
-Pode falar!
- Eu estou encarregado de enviar uma paixão adolescente mas não sei como é. Preciso sentir esta paixão no coração de uma mortal para reproduzir e enviar.
- E como eu posso ajudar?
-Tem que ser uma paixão ardente e pura como a rosa nova! Eu inspiro você?
Ele me apertava forte contra seu peito e olhava direto na minha alma com aquele par de olhos, como nunca de novo eu vi igual. Toda a eletricidade do começo agora percorria o meu corpo em ondas pulsantes. Eu não queria que acabasse mais, queria que ele continuasse a dançar comigo pela eternidade.
Eu pensei, e entendi que ele precisava que eu me apaixonasse por ele. Ele receberia o meu sentimento pra ficar repleto dele como um vaso. Procurei ver bem dentro de mim o que eu sentia pelo anjo e ver se conseguia me apaixonar, o que não seria difícil porque ele era lindíssimo e irradiava bondade, carinho, compreensão. Em outros tempos eu cairia de paixão por ele.
Mas apesar de todo esforço, só o que eu encontrei dentro de mim foi um deserto árido sem emoção alguma a não ser uma admiração profunda. Tentei fuçando no meu íntimo várias vezes e não achei nada. Disse a ele:
-Me perdoe, você é digno de uma paixão adolescente! Você é lindo e bom!
Mas estou seca por dentro, e embora eu esteja envolvida com outra pessoa, nem por ele eu consigo sentir paixão...então me desculpe...eu adoraria sentir isso por você mas não consigo mesmo.
O anjo não disse nada, me olhou com uma compreensão e simpatia sem precedentes, e irradiando carinho me depositou como uma flor sobre a pequena plataforma. Eu atravessei o arco em direção à sala redonda e me vi novamente no meu quarto com os fones de ouvido. A música estava bem no final. Nunca mais vi o anjo. Mas a sensação de eletricidade no meu corpo ainda durou vários dias.



Esta é versão estendida que estava no meu LP de vinil da musica que eu dancei com o anjo, clique no youtube para ouvir.
This is the extended version on my vinyl LP record, that is the soundtrack for this experience, click on youtube to listen:

O que você anda fazendo com o seu tempo?



O que você anda fazendo com o seu tempo?


Não a gente não tem tempo de sobra.
A gente nasce com os dias contados e morre a cada segundo.
Não, não é uma visão pessimista.
Postergar coisas pode significar não obtê-las nunca.
Passamos a maior parte da vida amealhando, juntando, acumulando seja lá o que for, pensando em usufruir um dia.
Porém, pode ser que a vida tome um rumo insólito e isso não aconteça.
Como no caso do sujeito que passou anos esperando uma oportunidade pra tirar férias do trabalho e levar os filhos pra Disney. Estressou, teve um derrame e está na cama pra sempre. Devia ter mudado de emprego logo.
Da executiva que investiu o melhor de sua saúde e juventude na carreira, e hoje não consegue ter filhos, vai ter que apelar pra doação de óvulos ou adotar.
Ou então no caso mais comum:
De alguém que passa a vida toda postergando o próprio descanso, prazer, satisfação pessoal, por causa de obrigações, trabalho, protocolos e etc...
Que engole sapo diariamente e trabalha no que não gosta.
Negligencia afeto e atenção aos seres amados, e emenda um dia idêntico após o outro. São criaturas que se deixam levar pelas circunstâncias sem nenhum respeito pelas próprias necessidades e sonhos.
O tempo é o bem mais precioso do ser humano, usá-lo em benefício próprio é um direito e um dever.
O trabalho e as obrigações não podem ser mais do que meios lícitos de alcançarmos nossos sonhos. Nunca um fim em si.
Os filhos crescem, nossos amigos e companheiros, pais e avós envelhecem e morrem antes que possamos conviver com eles como desejamos.
Convivência e vida social, vida familiar, toma tempo e carece de investimento, de atenção.
Não dá tempo de esperar que as coisas caiam do céu ou melhorem por milagre, a gente tem que ser feliz aqui e já.
Um dia eu recebi um prognostico fechado de doença e pensei:
-Nossa, mas morrer já? Eu sou muito jovem, quando eu chegar no céu vou reclamar com o responsável. Queria ver meu filho crescer, viajar com ele, ter sido mais feliz. Vida besta esta que estou deixando. Não, não vim aqui pra isso.
Cheguei à conclusão que Deus havia me dado tempo sim, o qual eu não soube aproveitar, e que chegando no céu ia reclamar, mas ouvir:
-Teve tempo de sobra, não fez porque não quis.
E eu ia ficar com cara de tacho.
Hoje estou alive and kicking.
Só trabalho o necessário para viver, o resto do meu tempo eu gasto com quem amo.
Não aceito imposições, protocolos e obrigações que não assumi.
Se algo me amola, descarto, isolo, neutralizo.
Foi-se o tempo em que tentava abraçar o mundo com as pernas e me sentia responsável por dar jeito em tudo.
Foi-se o tempo em que me obrigava a aturar gente chata e fazer média.
Adotei o direito ao dane-se.
Hoje falo verdades com muita classe, e sem classe alguma também, dependendo do meu humor. Mas não levo desaforo pra casa.
Só vou aonde eu quiser e em consideração a mim mesma.
Não preciso mais provar que sou educada, bem comportada e ajustada.
Aprendi a não me apegar a pessoas, lugares e coisas.
Só a amá-los, ou não.
Aprendi que não se sentir preso a alguém, a um lugar ou a uma coisa é verdadeiramente libertador do ponto de vista espiritual, e dá margem a uma riqueza enorme de aprendizados, mudanças e transformações.
Cumpro com as obrigações que escolhi e que considero justas,
mas meu livre arbítrio é exercitado a cada segundo.

Reacendendo minha chama





Reacendendo minha chama


Reacendo minha chama assoprando levemente o foguinho que paira entre as palmas das minhas mãos, porque com força demais posso apagá-lo de vez.
Quero que minha chama brilhe forte e espalhe seu calor, reaquecendo meu coração, para que ele tenha a idade que tem e nem um dia a mais.
Quero que o fluxo da minha vida sopre forte dentro de mim para que eu possa sentir o vigor da minha idade e nem um dia a mais.
Quero que meu caminho seja claro, limpo e bem traçado.
Quero o meu corpo todo feliz em hospedar minha alma.
Quero minha alma toda contente por habitar o meu corpo.
Quero que o sol nasça no meu coração e saia pelos meus olhos.
Quero inspirar luz e expirar rosas.
Quero abrir os braços e confortar o mundo.
Quero espalhar meu ser por ai como chuva prateada.
Quero viver livre e ser plena.

Três mulheres no espelho





Três mulheres no espelho



A primeira só descobre o espelho quando descobre que é mulher.
Ai fica procurando pequenos defeitos, decorando as diferenças entre ela e as outras mulheres.
Espreme cravos e espinhas, passa o primeiro batom e borra o primeiro rímel.
Faz mil testes com os penteados.
Enxerga o nariz e as orelhas maiores do que são.
Empina o peito pra ficar mais saliente e arrebita o bumbum.
Nem assim vê as curvas que estão se delineando.
Sofre por se achar menos bonita do que é, por querer parecer mais velha.
A segunda conhece bem o espelho. É amiga íntima dele.
É ele que lhe conta os segredos do seu corpo, que revela seus pontos fortes e fracos. Ela flerta com o espelho, que é o fiel conselheiro de muitos anos.
Explora seu potencial e confere no reflexo.
Procura por detalhes, estrias, celulite, pergunta a ele se é desejável.
Sempre se acha mais gorda do que está.
Faz caras e bocas, encolhe a barriga, ajeita o decote e alisa as pernas.
Nunca fica totalmente satisfeita.
Sofre por não ser feliz consigo mesma, por querer ser outra.
A terceira é viciada no espelho.
Ela o odeia com todas as suas forças porque não é mais um amigo.
Reflete uma imagem que escarnece dos seus esforços pra segurar o tempo.
Ela tem medo de olhar diretamente dentro dele, mas não resiste.
Todos os dias pratica o ritual de examinar-se com cuidado.
Faz um inventário meticuloso das rugas, manchas, e cabelos brancos.
Estica o queixo duplo e suspende as pálpebras. Fica parecendo uma caricatura chinesa, e nem assim reconhece as feições de antes.
Sofre por querer parecer mais nova, lamenta não ter valorizado o quanto foi bonita quando jovem.
Três mulheres que nunca foram bonitas o suficiente pra quem mais importa, elas mesmas.

A orquestra das cigarras




A orquestra das cigarras

Eu que moro no alto de um prédio da selva de pedra no Rio de Janeiro, vejo o mar, vejo a mata atlântica ao longe, mas não ouço o canto das cigarras.
Para mim que sou formiga o ano todo desde criança, isso faz uma enorme falta.
Na minha infância cercada de mato, era o anúncio da chegada do verão, e com ele, as férias, e o Natal. A melhor época do ano.
O coro enlouquecido dos machos chamando as fêmeas com sua zoada, as cascas abandonadas nas árvores, o esguicho de xixi destes bichos, tudo isso trazia a certeza de muita diversão.
Anunciava a vida como ela devia ser durante o ano todo no meu entender de criança: Sol, calor, água, festa, enfeites brilhantes, descanso e presentes.
Anunciava também a chegada das flores, dos sapos e dos vagalumes.
Sinto saudades do zumbido delas nas manhãs luminosas e quentes e nas tardes mornas quando o anoitecer vinha sempre atrasado.
Das noites abafadas com chuvas rápidas que deixavam a terra com cheiro de molhada.
Tem gente que se irrita com o barulho, mas para o meu coração é pura música.



"Slow Burn"

"Slow Burn"







É um filme antigo de 2000, com a Minnie Driver que eu assisti aos pedaços, cada dia um pouco.
Ela procura desde a infância uma caixa cheia de diamantes que seus ancestrais esconderam no deserto. Anda num jipe mulambento que é sua casa, e sua única salvação naquele ambiente árido.
Por ironia do destino quem acha a caixa de diamantes, é uma dupla de criminosos em fuga que acaba cruzando o caminho dela. Um deles tem os bolsos cheios de pedras que coleciona pela vida afora.
Não me recordo quem ou porque, faz uma troca, colocando a coleção de pedras na caixa, e os diamantes em outro canto.
No fim do filme, só sobra a moça e o cara da coleção de pedras. Ela acaba jogando as pedras dele fora e os diamantes somem sei lá por qual razão.
O que interessa é a conversa dos dois.
O cara reclama que ela jogou as pedras dele fora. E ela que ele perdeu os diamantes dela.
Mas ele diz:
-Cada pedra daquela eu catei num momento chave da minha vida. Cada uma tinha um
significado pra mim. Todas eram diferentes e especiais.
Ela inconformada:
-Mas você perdeu os diamantes que minha família procura há gerações, eu vou continuar atrás e vou achá-los de novo.
Ele implorando:
-Não faz isso, vem comigo, a ultima pedra que eu peguei foi quando você me beijou.
Vem embora comigo! E (mostrando uma pedrinha na mão) eu vou recomeçar a coleção agora! Você não precisa dos diamantes pra ser feliz, nunca precisou! Os diamantes vão matá-la.
Ela não cede, cada um vai para um lado. No caminho ela encontra com um velho que esta com os bolsos cheios de diamantes. Não me lembro mais que apito ele toca na história. Só sei que eles lutam e ela esgana o pobre coitado. Nesse ínterim, o jipe desce a duna de areia e vai embora rodando sozinho sem que ela perceba.
A moça morre seca e esturricada no deserto, andando a pé com as mãos cheias de diamantes.
É engraçado porque eu tive uma fase de colecionar pedras especiais quando criança. E também tive uma fase de andar olhando pro chão procurando elásticos de borracha. Só me interessava pelos encontrados, não valia se fossem comprados. Fiz uma enorme corda com eles e depois joguei fora porque melou.
As pedras guardei numa caixa até que quando minha mãe se mudou de casa, e jogou fora sem me avisar.
Eu tinha outra caixa também. De charuto Havana que meu avô me deu. Tinha fotos, cartas, bagulhos indecifráveis, recortes, coisas escritas, uma pulseira vermelha de acrílico quebrada.
Também sumiu. Na mudança obviamente.
Fiz um teste daqueles bobos de Internet e descobri que eu era um filme chamado “O fabuloso destino de Amelié Poulain”. Demorei anos pra assistir em DVD. Achei algumas semelhanças entre o meu comportamento e o dela. Mas somos muito diferentes no global. Só quando eu vi o comentário do diretor é que eu entendi. Somos parecidíssimos eu e ele. Portanto não sou parecida com a personagem, mas com o diretor. Vai ver que somos da mesma alma grupo. Ou, diretor bom, é aquele que faz filmes que refletem facetas do inconsciente coletivo. Vai saber, estes testes são estranhos.
Mas, resumo da ópera, todo mundo tem um caixa de pandora onde guarda diamantes, e tralhas queridas ou odiadas, inúteis ou insubstituíveis. O que importa é como a gente aproveita o conteúdo.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Coisas que eu gosto, detesto e odeio

Coisas que eu gosto, detesto e odeio

No Verão


Milho cozido com manteiga e sal
cachorro quente
Nadar, mergulhar,
E depois me deitar de barriga na pedra quente
Tomar sol dormindo na praia
Dormir na rede
Dormir na sala
Dormir mais
Boiar de costas ouvindo musica e vendo o céu
Limonada muito gelada
Caipirinha com peixe frito
Água de coco no coco
Comer a babinha do coco verde
Açaí na tigela com banana e granola
Pegar jacaré
Toboàgua
Picolé de fruta no palito
Reggae e lambada
Cheiro de mato depois da chuva

Mas Detesto
Duplas de frescobol
Areia no biquíni
Toalha ensopada
Cachorro na praia
Marreteiro gritão
Piso melequento
Queimadura de sol
Borrachudos
Canais de esgoto
Fio de cabelo sujando a água
Bronzeador de óleo

No Inverno



Fondue de queijo e chocolate
Chocolate quente com conhaque
Qualquer chocolate
Chazinhos estranhos
Petit fours
Pão quente com manteiga e geléia
Neblina
Lareira
Geada
Sopa com pão quente
Meias de lã
Edredom
Pipoca e vídeo
Vinho quente
Quentão
Batatas e cebolas assadas na brasa
Dormir até tarde abraçada com meu “cobertor de orelha”

E Odeio
Beiço rachado
Chuveiro morno e minguado
Vento frio
Nariz escorrendo
Umidade
Levantar cedo

Favoritos



Flores
Café da manhã de hotel
Cama king size com 6 Travesseiros de pluma
Perfume de jasmim, e ylang ylang no travesseiro
Chá de hortelã e cidreira gelados
Suco de casca de lima
Marshmallow em todas as suas formas
Pepino, alface, rabanete, erva-doce
O estrogonofe da minha mãe
O nhoque da minha Avó
Bacalhoada e feijoada das duas
Os espumantes do meu pai
Banho de espuma na banheira à luz de velas, com Tequilla gelada
New Age, New Wave
Blues, Reggae
Tangerina Ponkan
Caldo de cana geladíssimo
Morangos, Mirtilos, Framboesas, Amoras, e Carambolas
O sanduíche de filé com requeijão do meu marido
Rosas Vermelhas, Amores perfeitos, e Lírios
A voz do meu filho
A mão do meu marido
O sorriso e os beijos dos dois
Os abraços da minha família

Fazendo Parentes



Fazendo Parentes

Estava lendo um texto com este nome.
Tive uma intuição que nada tinha a ver com o texto.
Somos todos uma grande família cósmica, e estamos no tempo de “fazer parentes”. “Ter parentes” é uma contingência genética, mas “fazer” não.
Muitos de nós temos mais afinidade com amigos, companheiros de jornada, colegas, vizinhos, do que com quem divide uma parte do nosso código genético conosco.
No entanto, existe uma tradição de só considerarmos “parentes” aqueles que estão nesta categoria de DNA. Mas todos somos “parentes”.
No entanto, considero um desafio, evitar que se nivele a atenção dedicada a todos os “parentes” por baixo.
Esclarecendo, é tão difícil amar um desconhecido como a um parente biológico, quanto amar um parente biológico com quem não temos nenhuma afinidade, da mesma maneira que amamos alguns conhecidos queridos.
Nivelar por cima seria “Amar ao próximo, como a si mesmo”.
Nivelar por baixo seria amar todos como se fossem estranhos.

Serviço



Serviço

Como alguém pode prestar Serviço?
A atitude por trás de todo ensinamento é aquela de prestar Serviço voluntário, sem pensar em si. A atitude de crescimento na realização espiritual e na evolução da humanidade. Não o seu próprio desenvolvimento e crescimento pessoal, nem sua satisfação pessoal em receber informações novas e especiais. Conforme for evoluindo e sua alma for tomando posse progressiva de sua inteligência, quando sua mente e esforço estiverem direcionados ao trabalho coletivo, seu discurso e pensamentos tornarem-se não-ofensivos, você se torna o condutor do influxo Universal do Amor.
É importante não confundir sua mente em especulações com relação à identidade do professor. É realmente importante saber de quem se trata? Você pode comprovar sua identidade de uma maneira ou de outra? Tem algum valor aceitar afirmações de qualquer colega estudante que se auto proclama informado sobre o assunto, seja ele quem for?
Você nunca poderá provar que ele está certo ou errado, portanto é uma perda de tempo.
O que é importante é oferecer Serviço produtivo, estudar a fundo os fundamentos essenciais da vida e da consciência superior, e meditação.
O que é ensinado tem importância. Os aspectos da verdade apresentada devem ser ponderados, a estimulação mental e espiritual associada a ela, são importantes.
O treinamento da intuição para reconhecer a Verdade Espiritual deve ser sua meta.
A única autoridade é o ensinamento, e não o professor.
Foi esta confusão que gerou rituais impensados, religiões que servem só a uns poucos, e não à evolução humana.
Só existe uma autoridade, a própria Alma Imortal de cada pessoa, e esta é a única autoridade que deve ser reconhecida.

Faxina Espiritual




Faxina Espiritual

Quando fazemos limpeza em casa sempre descobrimos coisas incríveis nos guardados: tesouros e grandes porcarias.
É assim com a vida, com a alma.
Como sempre faço quando fico doente, paro também pra curar a alma.
Isso demanda paciência, cuidado e coragem.
Tenho memórias jogadas na lixeira que recuperei. Foi sorte nunca ter deletado.
Já tive um apartamento espaçoso, com uma sacada cheia de gerânios que eu aguava todas as tardes. Nesta época eu não comia carne alguma e fazia orações todos dos dias às seis da manhã antes de ir trabalhar. Fazia Yoga e meditação também. Não porque estivesse doente ou necessitada, mas pelo prazer de fazê-lo. Meu contato com Deus era diário e voluntário. Tinha saúde perfeita e eu sonhava com um bebê. Que veio, mas bem depois.
Lembrar dos gerânios encheu minha alma de perfume. Lembrar da rotina que era dura na época da residência medica, foi difícil. Não passaria por aquilo de novo. Tive que enfrentar muito lixo.
Acho que foi o mais perto que consegui chegar da condição de aspirante a anjo.
Eu acreditava que ser corajosa, trabalhadora e íntegra bastaria para manter meu universo em harmonia. De lá para cá foram quase vinte anos atendendo a dor alheia. Desde o quarto ano de medicina que o faço.
Hoje me faltam a inocência, a disponibilidade e a fé no ser humano.
É triste constatar como a consciência de massa e o carma global conseguiram me tragar para dentro deles. Voltei a comer carne, parei minhas orações e meditações. Entrei num túnel escuro achando que estava saindo dele, mas estava entrando. Vamos sendo impregnados com a amargura, o cinismo, a descrença e a indiferença. Perdemos o olhar puro diante dos fatos da vida.
Meu caminho de volta a Deus passa pela Misericórdia, Compaixão, Fé, Amor, Harmonia e principalmente pelo desligamento desta massa cármica global, para que meu plano de vida aconteça.
Continuo pedestre aspirante a anjo. Sei o quanto estou longe desta condição. Principalmente agora que minha carga é maior, mas se eu não der passo algum sei que não chegarei nunca. Quando me sinto fraca leio esta carta que esta abaixo e de alguma forma ela tem o poder de me dar força, trazer lagrimas aos meus olhos.

Desiderata

Siga tranqüilamente, entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

Tanto quanto possível, sem humilhar-se viva em harmonia com todos os que o cercam.

Fale a sua verdade mansa e claramente, e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, eles também tem sua própria história.

Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem o nosso espírito.

Se você se comparar com os outros, você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você.

Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui; e mesmo que você não possa perceber, a Terra e o Universo vão cumprindo o seu destino.

Viva intensamente o que já pode realizar, mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde, ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não caia na descrença, a virtude existirá sempre.

Muita gente luta por altos ideais, em toda parte a vida está cheia de heroísmo.

Seja você mesmo, principalmente não simule afeição nem seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene quanto a relva.

Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas também seja compreensivo aos impulsos inovadores da juventude, alimente a força do espírito que o protegerá no infortúnio inesperado; mas não se desespere com perigos imaginários, muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

E a despeito de uma disciplina rigorosa seja gentil consigo mesmo.

Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui; e mesmo que você não possa perceber a terra e o universo, vão cumprindo o seu destino.

Portanto esteja em paz com Deus, como quer que você o conceba e quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações, da fatigante jornada pela vida, mantenha-se em paz com sua própria alma. Acima da falsidade, do desencanto e agruras, o mundo ainda é bonito. Seja prudente.

FAÇA TUDO PARA SER FELIZ
by Max Ehrman (1920)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Diabretes





Diabretes (acreditem, foi comigo)

Senhora de uns 75anos, gordinha, entra no posto de saúde, carregando umas duas sacolas plásticas amarfanhadas com conteúdo não-identificável, uma sombrinha de cor berrante e uma bolsa enorme debaixo do sovaco.
Vem bufando e apitando na subida da rampa.
Para na frente do balcãozinho da enfermagem e estica a pasta e o cartão para a auxiliar de enfermagem, que ali labuta com dezenas de pessoas todas falando ao mesmo tempo com ela. A velhinha enfia tudo no nariz da moça que após alguns minutos consegue dar atenção a ela:
-Bom dia senhora! Sente aqui que vamos medir a pressão!
Ela se acomoda fungando na cadeira velha de plástico e estica o braço rechonchudo.
-Puxa esta alta! A senhora tomou seu remédio hoje?
-Não...proque fico com vontade de i no banhero!
-Mas Dona Fulana! Toda vez que vem aqui sua pressão esta alta porque nunca toma a medicação antes! Como que a médica vai saber se o remédio esta controlando ou não sua pressão?
-Não é purisso que eu vim.
-Porque então?
-Tou com diabretes! O pastor da minha igreja disse que se eu orassi muito Jésuis curava ieu, ieu obedeci e ai vim conferi se curô.
A mocinha arregala os olhos:
-Senta ai que vou falar com a doutora.
Corre pra dentro do consultório agitada:
-Doutora! Tem uma senhora ai fora que quer conferir se os diabretes que ela estava saíram com a oração!
-Quê?!
-É, disse que veio conferir isso com você.
-Ela deve ter errado de porta, a igreja fica a umas duas quadras daqui. Vai ver que viu o prédio grande com a porta aberta, errou e entrou aqui.
-Não, não, não! Ela sabe onde está.
Ai é onde suspiro e me pergunto por que existem as segundas feiras.
-Tá manda entrar, vamos ver o que posso fazer.
A mulher entra e senta apressada e suplica:
-Olha dotora minha pressão ta alta, mas só vim ver se os diabretes cabaram! Não quero bota remédio debaixo da língua hoje!
-Minha senhora, como que apareceram os diabretes?
-Eu não sabia que tinha, mas me disseram que era, e ai o pastor falou que era só pedi que Jesus curava.
-E como posso lhe ajudar?
-Vim saber se cabou oras!
- Mas como é que eu posso lhe dizer isso? Não sou religiosa, não entendo de exorcismo, e aqui não é igreja!
E a velhota muito irritada:
-Não ta entendendo, é DI-A-BRE-TES! Igual qui nem duença! Isso que a senhora ta falando é demônio!

domingo, 4 de outubro de 2009

O Grifo

O Grifo



Eu era adolescente. Entre 13 e 16 anos eu acho. Sonhei com ele várias vezes.
Eu sempre sonhava com uma floresta perigosa, floresta européia de centenas de anos atrás.
Ele era branco. Pelagem branca no corpo forte de leão, e penas alvas nas enormes asas. Olhos penetrantes e severos que pareciam partir minha alma em duas. Era alto com garras negras e afiadas. Orelhas pequenas e atentas como antenas. Eu tinha medo. Sabia que ele poderia furar meu crânio com uma única bicada.
Alguém me deu um apito de osso que assoprado, não fazia som, mas atraia o grifo obedientemente.
Sonhei muitas vezes com esta floresta e ali, enfrentei coisas estranhas. Sempre que me encrencava, usava o apito, e ele vinha.
Quando chegava estava dócil, eu o abraçava, subia nas suas costas e acordava.

Conspiração Cósmica



Conspiração Cósmica


Quero celebrar aqui o que acredito ser o movimento do Cosmos em plena harmonia das coisas que desabrocham como a vontade dos céus.
Quando o fluxo dos acontecimentos segue um rumo próprio onde coincidências improváveis ocorrem, temos que reconhecer que forças misteriosas agem em direção a um objetivo.
Eventos bons e ruins que fogem ao controle acabando servindo a um propósito misterioso a princípio, mas que aos poucos vai se definindo como a vontade do Cosmos.
Aprendi que realmente há males que vêm pra bem, e que para reconhecer os desenhos que as nuvens formam no céu é preciso olhos atentos. Temos que ouvir com cuidado o sussurro do coração, que canta baixinho a letra da nossa música, o roteiro pra nossa vida.
Nossos sonhos por mais distantes que pareçam, carregam em si o potencial de realização. Abandonar ao longo do caminho todo peso morto, todo sentimento denso, tudo que nos atrasa, pode ajudar a correr mais rápido em direção a eles.
Até os imprevistos mais incômodos podem estar construindo um novo degrau na longa escada que nos leva a alcançar os desejos mais profundos do coração.
Quando se está no caminho certo, o próprio Cosmos assume o comando e conspira para que tudo dê certo.
Digo tudo isso pra mim mesma, e também que preciso confiar, ter Fé.
Neste ano especialmente, quero estar atenta a cada passo e obedecer à vontade dos céus.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Sono e o Sonho





O Sonho

É um poema escrito a quatro mãos: mente e cérebro, sentimento e coração.
O corpo é a musa que como um presente vivo recebe as laçadas dos rolos de fitas gravados no inconsciente.
É a tela de projeção do caleidoscópico papel de embrulho feito de matéria etérea.
Ao acordar ele se vai elusivo. Se não o agarramos no segundo entre a vigília e o sono, nenhuma lembrança se fixa, nem do poema, nem da música, nem do filme. Tudo some.
O corpo se despe do presente evanescente, e passa de musa, a câmera, gravador e roteirista, poeta, compositor e diretor; dos próximos capítulos.

Meu sono
É um poema escrito a quatro mãos.
O cérebro suspira aliviado, a mente sorri com a liberdade, o coração se acalma com o conforto e os sentimentos param para dar lugar à insustentável leveza do ser..

Do alfa ao ômega

Do alfa ao ômega

Ninguém conseguiu me ensinar a viver, embora muita, mas muita gente mesmo tenha tentado, e por incrível que pareça...ainda há quem tente.
Não acho que posso dizer que aprendi. Nem mesmo sozinha. Ainda estou aprendendo.
Não me preparei pra viver, simplesmente fui vivendo conforme as coisas foram acontecendo na minha vida. Estivesse eu preparada ou não.
De algumas me sai mal, outras bem. Sempre aprendi alguma lição.
Não pude me preparar pra viver.
Mas posso me preparar pra morrer.
Reparei que venho me preparando pra isso mesmo sem querer.
Nada parecido com um testamento, rituais funerários ou mesmo algum tipo de suicídio teatral.
Venho me preparando pra um dia ter de ir embora. Porque esta é ainda única certeza que temos na vida.
As pessoas se chocam. Porque elas acham que estou me malagourando a mim mesma, se posso chamar assim. Ou porque estou deprimida. Ou qualquer outra besteira que não tem nada a ver com a minha realidade.
Estou muito bem.
Tão bem que vejo a vida diferente. Eu me emociono todo dia com ela.
Estar abraçada a quem eu amo é um presente de Deus.
Posso durar mais cinqüenta anos e vou viver cada dia como se fosse o último.
E aos poucos estou me despedindo, fazendo o luto da perda de mim mesma.
Suavemente, vivo esta despedida dia a dia. Celebrando o que eu amo.
Dando adeus ao que ficou para trás.
Quando de fato minha hora chegar, não terei esquecido de nada nem de ninguém. Vou levar tudo comigo no coração da alma.

Castelos de areia



Castelos de areia

Trancada em casa o dia todo, acabo assistindo mais TV do que o normal. Vi um programa onde um sujeito convocou voluntários para construir um castelo de 19m de altura e 100 metros quadrados, mas totalmente esculpido na areia.
O castelo ficou belíssimo com as esculturas, e a decoração feita pelos voluntários. Ficou 30 dias aberto à visitação do público, e depois foi brutalmente demolido com escavadeiras.
Uma das voluntárias confessou com lágrimas nos olhos que estava tentando guardar o castelo na sua mente. Porque mesmo que fizessem outro castelo de areia, nunca seria o mesmo.
É isso que o tempo faz com a gente. Cada segundo é único, e não tem como rebobinar a vida, reviver tudo igualzinho a partir de um determinado ponto. Algo sempre muda, mesmo que as coisas pareçam se repetir. Como naquele filme “Feitiço do Tempo”.
Quem assistiu lembra que mesmo na repetição, as coisas não saiam idênticas, porque o livre arbítrio do cara interferia com o resultado.
Ele tanto fez e repetiu que tudo ficou perfeito. E ele foi feliz para sempre.
Como já estive doente por dez anos seguidos, fico procurando no fundo da minha mente, alguma pista do que é que fiz de errado das outras vezes. Quero me curar de vez e não ter, nem repetir mais nenhuma doença. Agora só quero repetir as partes boas. Mesmo que não sejam replays perfeitos.

domingo, 20 de setembro de 2009

Nos braços de Morpheus

Nos braços de Morpheus




O despertador e eu temos um pacto involuntário. Basta que ele monte guarda ao meu lado, pra que eu acorde sozinha cinco minutos antes da hora. Abro os olhos e lá está ele sorrindo e mostrando as horas, dizendo que estou adiantada.
Mas o sono, amante possessivo com suas mãos poderosas, me puxa pela cintura de volta pra ele dizendo:
-Vem cá linda que temos mais cinco minutos de intimidade!
E eu me rendo ao abraço forte e macio de Morpheus, me aconchegando a ele no melhor sono da noite toda.
Acordo pouco depois, com o alarme ciumento como se tivesse dormido por horas, e deslizo suavemente pra fora deste idílio.
Difícil é encarar a vigilía do dia a dia.

sábado, 19 de setembro de 2009

Vida em branco e preto

Vida em branco e preto


Eu não quero minha vida em branco e preto, com emoções pequenas, sem ardor, sem paixão, sem arrebatamento. Não quero a rotina maçante, a mesmice medíocre de dias sempre iguais, sem novidades e sem desafios.
Não quero ter controle total das minhas emoções. Quero oscilar, navegar nelas nos dias calmos e enfrentar ondas vigorosas em tempestades. Que a batalha seja grande e a vitória ainda maior. Que o pensamento racional e lógico seja apenas a tela sobre a qual pinto uma paisagem profundamente calcada no emocional.
Não quero meu mundo pequeno. Não quero ver o céu de baixo, quero sempre um horizonte na minha frente. Não quero morrer escondida na luz fria de dentro de casa. Quero o sol por testemunha, a Lua por madrinha. Quero mudanças, fluidez dinâmica, renovação e caminhos. Muitos caminhos. Que eles sejam tantos, que eu tenha muita duvida para escolher. Que o destino se multiplique em milhares de janelas coloridas como um caleidoscópio, e eu me perca nele atraída pelos desenhos.
Que as surpresas sejam muitas e agradáveis e os imprevistos que as acompanham poucos. Quero dormir só pra aproveitar a dimensão do sono pra viver através do sonho. Quero que cada segundo da minha vida contenha tanta energia, que minha alma solte faíscas com a passagem do tempo.
Quero conhecer as múltiplas possibilidades dos universos paralelos e jogar interativamente em cada uma delas.
Quero uma sinfonia épica como trilha sonora de tudo.
Quero estar consciente de cada movimento, de cada cor, de cada sentimento, de cada cheiro em torno de mim. Da possibilidade da fantasia ser parceira da realidade em perfeita harmonia.
Que a aceleração, as paradas, as subidas e as descidas nunca sigam um padrão e minha sensação permanente seja um frio na barriga. Que tudo sejam sempre novidade e aprendizado, mas se não der, que as coisas repetidas sejam todas maravilhosas.
Só faço questão de constância em um aspecto, quero que aqueles que eu amo fiquem de vez na minha vida.

O Carteiro

O Carteiro



Anos atrás fiquei afastada após uma cirurgia. Nunca estou em casa e quase sempre tenho que ir buscar minha correspondência registrada na agência do correio mesmo. Mas no dia seguinte ao que sai do hospital, fui acordada às sete da manhã por um interfone ensandecido. Arrastei-me até ele morrendo de dor e atendi.
Era o carteiro: -É aqui que mora a Fabiana?
E eu me mal me agüentando de pé respondi: -Eu mesma porque?
E a voz dele berrando no interfone: -SEDEXXXXXSSSS!
Morava num sobrado, mas desci o mais rápido que consegui, pois estava sozinha e tinha de ser que eu mesma. Havia chegado meu esparadrapo antialérgico, que alívio!
Abri o portão. O moço alto me deu a caneta pra assinar o papel, e sem cerimônia, muito irritado, disparou:
- Eu estou tentando entregar isso há três dias, já ia desistir. Porque nunca ninguém atende?
E eu assinando:
-Porque eu estava internada.
Ele ficou olhando quieto, pegou a caneta de volta e me deu o sedex. Agradeci, e sai andando devagarinho abraçada ao pacote. O moço continuou lá olhando pelo buraco dos tijolos vazados no muro.
Pensei comigo que ele devia estar apostando que eu nunca chegaria na porta de casa mancando daquele jeito. Esqueci disso e nunca mais vi o carteiro.
Até um outro dia. Bem na hora do almoço, o mesmo toque desesperado de interfone quase me matou de susto. Estava lá o moço com outra caixa na mão.
Desta vez eu desci os degraus da escada de dois em dois e sai aos pulos de dentro de casa. Tinha chegado minha mesinha digitalizadora. Abri o portão e dei de cara com aqueles olhos grandes e a caneta em riste. Assinei, agradeci e entrei correndo pra guardar a caixa.
Tive que sair dois minutos depois porque estava muito atrasada, e notei que ele tinha acabado de partir com a moto amarela do correio.
Abri o portão eletrônico de casa e dei ré com o carro. Mas parei quando vi um dos tijolos vazados. Ele tinha deixado lá um raminho de flores vermelhas apanhado da cerca da vizinha, todo arrumadinho num canto, perto da caixa de correio.

O Moço das Rosas

O Moço das Rosas






Ele tinha uns dezessete anos e eu no máximo uns quinze. Era lindo e tinha um sorriso de derreter aço inox. Não creio que tivesse me notado, eu parecia uns doze, era magrela sem curvas, usava óculos e aparelho nos dentes.
Era órfão de pai e mãe, morava e trabalhava de sol a sol na floricultura da tia que o criou. Estudava de noite, com certeza já bem cansado, e eu morria de dó. A tia era uma mocréia velha e azeda com uma língua venenosa e um humor de cão que ninguém suportava. Ficava no caixa graças a Deus.
Ele no balcão vendia montes de violetas, orquídeas nos vasos, bromélias, copos de leite, lírios e lisianthus. Fazia um sucesso tremendo com as coroas e donas de casa, que o conheciam até pelo nome.
Mas o que mais o moço vendia eram buquês de rosas de todas as cores. Ele mesmo os arrumava com carinho. Ficavam lindos. Eu, criatura mística, no meu fervor devocional à Maria comprava rosas brancas uma vez por mês e oferecia à santa. Fiz isso durante muitos anos da minha vida.
Lógico que dava preferência aos ramalhetes do garoto. Eu e toda a clientela do bairro. A tia dele me parecia pura e simplesmente uma exploradora. Um tempo depois entendi melhor o que se passava.
O tal rapaz além de bonito e simpático, longe de se importar com o trabalho, tinha o carisma e o bom humor que faltavam àquela senhora. Ele era educadíssimo, e depois de fazer arranjos encantadores, entregava mais um ou dos botões extras à cliente, daquelas rosas que se não fossem vendidas naquele dia, murchariam sem abrir. Isso era sucesso de público garantido.
Ele entregava separado do resto, e em voz baixa como que escondido da tia-bruxa dizia:
- Estes dois são por minha conta, de mim pra você!
Este gesto simples era acompanhado de um enorme sorriso e visível satisfação em ver a alegria da cliente.
Na verdade, hoje sei que não se tratava de marketing da parte dele. Ele gostava de fazer aquilo do fundo do coração, gostava de ver os sorrisos. Qual é a mulher por mais velha que seja que não gosta que um homem, ainda que sem segundas intenções lhe dê uma flor? A tia que não era boba, nem reclamou e saiu do balcão deixando toda a ação pra ele. Velha esperta.
Depois de um tempo o moço sumiu. Se eu que era a cliente mais jovem não me esqueci dele, com certeza as outras também não.
Eu penso é que muitas mulheres nunca cruzam com aquele cara que vai dar a elas, o amor necessário pra que desabrochem, mesmo que este cara não se case com elas. O botãozinho de rosa murcha antes mesmo de abrir. Vai ver foi caso da tia dele.

Canção de Miguel




Canção de Miguel (Desconheço o autor)

"Arcanjo Miguel, Arcanjo Miguel, Arcanjo Miguel, Arcanjo Miguel
Arcanjo Miguel secciona tudo aqui em mim, que não seja, a Verdade, e a Vontade do Pai do Céu
Arcanjo Miguel, me envolve em teu brilhante azul, protegei minha aura, defendendo a minha fé,
Arcanjo Miguel, com a tua espada feita em Luz, corta os laços que me prendem, que me amarram na escuridão,
Arcanjo Miguel, me socorre em todos os conflitos, ilumina minha sombra escondida no coração."

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Pequenos milagres

Pequenos milagres




O dia a dia é feito deles. Mas a gente não percebe.
Aquele programa de TV que você pega no meio, mas assiste justamente a parte que você precisava ver.
O site na Internet em que você entra por acaso, mas que tem todas as informações que você buscava de um assunto que estava esquecido.
O dinheiro da restituição do IR que aparece justamente quando você esta na pendura.
O livro que sua amiga lhe dá e que ilumina uma parte sombria da sua vida.
A música que diz exatamente como a você se sente, compartilhando um momento triste, como o conforto de um ombro amigo.
As coisas que surgem do nada, na ultima hora, no ultimo minuto, em nosso socorro.
Os anjos encarnados que entram em nossas vidas às vezes apenas por um breve momento, e redirecionam o nosso rumo pra luz.

Entretelas de jardins

Entretelas de jardins

Uma filosofia oriental diz que a vida do ser humano é como um tapete cheio de tramas, urdiduras e bordados.
Demorei a captar a mensagem, mas um dia eu entendi.
Aos oito anos morei numa casa inglesa com um parque tipicamente inglês cheio de flores inglesas bem na porta.
Passei férias de verão em Paris vendo telas vivas nos jardins verdes e também nos “jardins” emoldurados nas grandes galerias dos museus.
Daí vem minha enorme nostalgia ao ver pinturas de Monet e outros como Klimt e Van Gogh, criaturas ecológicas já no milênio passado.
As lindas distorções e mutações de cores que Van Gogh e Monet amavam reproduzir a cada nova estação do ano, só pude compreendê-las já adulta estudando os cones e bastonetes do olho humano.
Então pude enxergar os jardins como eles os viam.
O primeiro em sua encantada loucura e o segundo em sua fantástica e progressiva cegueira.
Com minha mãe que foi pintora antes de virar psicóloga, eu aprendi a ver as telas de dentro pra fora. Perceber o sentimento, tentar adivinhar o pensamento do pintor em cada pincelada.
E ai sim estender isso para o interior do ser humano. Virar o tapete do avesso, analisar a trama, a urdidura, os bordados e o capricho no arremate.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Alma Curiosa

Alma Curiosa

Outro dia no aeroporto lotado, esperando um vôo da ponte aérea que nunca chamava para o embarque, tive uma vontade estranha.
Imaginei como seria se eu fosse um anjo que pudesse sobrevoar os grandes locais públicos, como aeroportos, metrôs, mercados, shopping-centers, edifícios públicos, clubes, parques, campos de futebol, etc...
Só que num horário bem tarde da noite, naquela certeza de que a maior parte dos homens esta na cama, sonhando com as coisas do dia a dia, e com aquilo que é o desejo do coração de cada um deles.
Eu voaria do alto olhando o telhado dos edifícios, planando sobre eles e imaginando como seria a planta daquelas construções. Depois desceria suavemente nos escritórios e prédios, e procurando uma janela aberta, entraria deslizando como um vento fresco, sem tocar os pisos perfumados de desinfetante, resultado da faxina noturna.
Percorreria os longos e vazios corredores de granito, atravessando portas fechadas e entrando em salas cheirando a carpete, imaginando quem ali trabalharia de dia. Quem mexeria naqueles papéis, quem sentaria naquelas cadeiras? Andaria pelas plataformas do metrô ouvindo de longe o guinchar de um trem solitário, vendo a marca dos milhões de sapatos que esperam na linha amarela que fica no chão. Quem são estes que viajam todos os dias? Quantos deles são felizes? Pra onde vão? Quantos deles irão morrer hoje?
Entraria nos mercados vendo a limpeza, as pessoas que nunca dormem de noite pra que outras comprem de dia, sentindo o cheiro úmido de frutas podres e legumes murchos, ouvindo os ecos de ruídos estridentes de caixas arrastadas. Faria um passeio no shopping vazio, brilhando na noite como uma caixa de jóias envidraçada, cheia de figuras imóveis e objetos aguardando um dono, e assopraria no ouvido do guarda adormecido.
Pousaria agachada no encosto do banco do parque, minhas asas fechadas molhadas de sereno, e observaria os animais noturnos perderem a timidez e se revelarem na noite da cidade, sob as estrelas. Quantas pessoas passam por ali todos os dias, e nem suspeitam da fauna oculta pelas sombras...
Planaria sobre o cais parado ouvindo o mar logo embaixo, vendo os ganchos escuros e as correntes, sentindo a maresia. Desceria nas fábricas vazias, vendo as caixas e os galões, pensando nos homens que os transportam, distribuem e guardam. Quem os compraria?
Sentiria em cada lugar silencioso, na cadeira desocupada, no corredor vazio, na rua solitária, nas máquinas paradas, a presença daqueles que durante o dia, desejam, sonham, sofrem e vivem ali. Adivinhando cada gesto, cada ausência naquela noite.
Voaria alto entre os prédios adormecidos.
Subiria na antena do pico mais elevado, ficaria na pontinha dos pés e abriria totalmente meus braços e as minhas asas, pra escancarar meu coração e derramar amor pela humanidade... de...uma...só....vez!


Imagem de Linda Gadbois

Amigos do Orkut

Amigos do Orkut

Tem gente com cem amigos, outros com duzentos, trezentos, sei lá...
Gente que mal entra no site e uma semana depois já tem cinquenta, cem.
Eu fico morrendo de inveja. Queria ter tanto amigo assim. Puxa vida!
Porque amigo meu de verdade, daqueles que saem de pijama no meio da noite chuvosa pra me socorrer, acho que cabem numa só das minha mãos, e ainda sobra vaga em um dedo ou outro.
Colega de trabalho tenho aos montes. Amigos dos amigos. Conhecidos meus, do meu marido, dos meus pais, do meu irmão, dos meus primos. Parentes de conhecidos dos amigos. Tem até gente que me conhece mas eu nem sei quem é. Verdade mesmo. Isso eu tenho de baciada. Dava pra fazer um numero bonito pro orkut. Mas não são meus amigos. São só conhecidos contatos profissionais, sociais, clientes. Na minha cidade natal sou praticamente pessoa pública. Já pensou se todos quiserem me adicionar no orkut? Credo!
Aí fiquei pensando. Onde andariam as pessoas do passado de quem eu me lembro? De quem vez ou outra eu sinto falta? Onde estarão? Não sei, não achei. E fiz a busca direito.
Eu sei que não cultivei relacionamentos. Não mesmo. Pelo contrário, fiz questão de botar ponto final em muitos. E também não deixei rastros e nem contatos. Pra ser sincera eu sumi mesmo. Literalmente casei e mudei.
Posso garantir também que quase virei outra pessoa, e possívelmente os meus amigos do passado também. Então não tem sentido ficar procurando ninguém.
Mesmo que a gente se achasse não se reconheceria. Físicamente até.
Tem mais. Minha geração usa pouco a internet. Minha categoria profissional também. Somos do tempo de furar cartãozinho no vestibular. Menos motivo ainda pra procurar gente no orkut.
Aliás não foi no orkut que achei conhecidos perdidos de longa data. Foi no Friends Reunited. Um site do Reino Unido que tem a escola onde estudei por dois anos. Nenhum deles é meu amigo hoje. E nem foi na época, eramos “amigos” porque éramos crianças da mesma classe. Mas foi ótimo ler os testemunhos de coisas acontecidas trinta anos atrás, e saber da vida de gente que considerava sumida. Li sobre as vidas dos canadenses, australianos, ingleses, paquistaneses e iraquianos da minha classe. Deixei o meu testemunho por lá. Lembrei de nomes, rostos e coisas longamente esquecidas.
Ninguém ali professa amizade a ninguém, mas troca pedacinhos de lembranças, que como um quebra-cabeças remonta uma parte da nossa infância. Isso eu achei legal, isso fez bem ao meu coração.

Morangos e a Inveja

Morangos e a Inveja





Inveja é assim: se eu não tenho então você também não pode ter.
E se ousar ter, eu destruo.
Eu estava escolhendo uns morangos lindos no supermercado e já tinha pego três caixinhas.
Chega uma mulher mais velha, ar de classe média e espia as minhas caixinhas de morangos dentro do carrinho, e nem olha as que estavam expostas na banca de frutas.
-Tão bonitos né? Vermelhinhos...
E eu olhando com aquela cara de quem não ta muito a fim de papo:
-Estão sim!
Ela olhando a plaquinha de preço:
- Ahhh... mas deve ser daquele que é duro e sem gosto!!!
E ficou esperando que eu devolvesse as caixinhas pra banca.
Ignorei e sai lentamente empurrando o carrinho.
Ela não se agüentou e soltou esta:
-Vão estragar num instante, tão maduros demais.
Nem respondi.
Estavam ótimos.Comemos todos.
Lembrei da fabula de La Fontaine sobre a raposa e as uvas.

A Conta do Inferno e o Anjo da Fila

A Conta do Inferno e o Anjo da Fila

Esqueci de pagar uma conta do final do mês. Até porque esta era a primeira conta nesta data. Todas são no começo.
Calculei juros, mora, tentei via internet, nada.
Caixa eletrônico, nada. Impagável.
Passei o final de semana inteiro tentando, e tudo somou cinco dias de juros.
Resolvi pagar no banco. Se não fosse a única saída, jamais seria a minha opção final.
O Inferno:
Dia primeiro, Banco do Brasil, agência Colombo, Copacabana, lotada!
Levei meu filho junto. Ambos morrendo de fome, com vontade de ir ao banheiro.
A fila dos idosos estava ainda pior, já que neste bairro de 2 milhões de pessoas eles são maioria.
As velhinhas não paravam de falar nunca! Uma moça saiu da fila comum e sentou-se numa cadeira junto com elas. Lá do fundo uma velhota rouca gritava:
-Não pode sentar aí não! É só pra idoso!
Gritou três vezes.
A moça acabou respondendo:
-Não vou passar na frente, a minha fila é a outra, só quero sentar!
A velhota enlouquecida:
-Não pode, não pode! Fala pra ela sair daí!
A moça com cara de dor:
-Eu fiz cesárea tá?! Meu corte está doendo de ficar de pé, quero sentar um pouco! Posso?
Agora todas as harpias em coro responderam:
-Não! Aqui é só pra idoso!
A moça fez cara de indignação e voltou mancando pra nossa fila.
Dois minutos depois um velhote vai direto ao caixa e diz:
-Eu tenho isquemia cerebral, vai me atender?
E o caixa:
-Só se a fila de idosos deixar.
A primeira velha da fila:
-Por mim eu deixo.
A segunda em tom doutoral:
-Isquemia cerebral é crônica, ele vive assim, e nem está torto nem nada. Não vai passar não!
A filha do velhinho implora:
Mas ele só quer encerrar a conta no banco, e sacar R$1,70, pode?
Todas as velhinhas gritaram em tom indignado:
-Nãoooooooo!
Os dois fizeram muxoxo e saíram do banco.
Cerca de uma hora e quarenta depois, quase na boca do caixa, outra velhinha que estava na fila normal (devia ser proibido), logo atrás de nós, muito sutil, berra do nada apontando meu filho com o indicador:
-Nossa é um menino! E eu pensei que era menina!
Ele se parece com um anjo mal humorado e usa o cabelo mais comprido que o meu.
Eu e um cara do lado caímos na risada. Meu garoto nem percebeu.
E ela ainda olhando espantada:
-Poxa mas ele é bonito! Até parece uma moça!
E eu pensando: agora sim, feliz dela que ele não ouviu isso!
Fiz um gesto com a mão significando: ela fala demais! O cara do lado continuou rindo.
Chegamos finalmente ao caixa, para descobrir que a minha conta só seria paga na Caixa Econômica Federal e em nenhum outro banco do universo conhecido.
Eu reclamei que o atendente da entrada garantiu que eu poderia pagar lá, mas o caixa sugeriu que eu estava autorizada a esganar o sujeito por isso. E não aceitou o pagamento de jeito nenhum.
Tirei o dinheiro e toca ir para a Caixa com um bolão de notas no bolso.
O purgatório:
No caminho minha sandália direita arrebentou.
Meu filho olhou consternado e disse:
-Tadinha! É mãe, as coisas negativas vão só se somando.
Por via das dúvidas mandei-o pra casa, e me arrastei sozinha, um pé descalço outro não, até lá.
Estava decidida a pagar a maldita conta e não me irritar de jeito nenhum.
Desci as escadas da Caixa mancando e pulando.
Quando peguei a senha, tinha mais de 50 números na minha frente.
Devo ter feito uma cara terrível, porque nessa hora apareceu um anjo.
Um moço engravatado me chamou e me deu uma senha 30 números mais baixa. Ainda não sei por que ele fez isso (seria a sandália ruim, minha cara de quem vai morrer?), mas agradeci muito!
Sentei conformada, e para minha surpresa o anjo voltou.
Pegou minha senha e trocou por uns oito números abaixo.
Nem sabia como agradecer. Fiquei espantada com tanta amabilidade depois de ver as velhinhas amargas expulsarem as pessoas da fila. Senti esperança renovada na humanidade.
Esperei, esperei mais uma hora e meia.
Finalmente chegou minha vez. O caixa que me atendeu tinha isquemia cerebral de verdade, uma feia seqüela de derrame. Estava meio torto, movia-se bem devagarzinho, e pensava lentamente. Este sim precisava estar em casa descansando, mas estava trabalhando coitado.
O céu:
Finalmente paguei e me mandei para casa, com fome, de bexiga cheia, tentando pisar no resto de sandália que sobrou, e bendizendo os anjos engravatados que tem piedade de nós.
Fui pensando: da próxima vez que eu ficar na fila do banco, vou pegar várias senhas e dar pras pessoas doentes ou necessitadas que chegarem depois de mim: mulheres com pontos na barriga, moças com pressão baixa, rapazes com o pé machucado, mães com crianças pequenas que não sejam mais de colo. Porque pra pessoas com menos de 65 anos aqui ninguém facilita, mesmo que estejam moribundas.
Só facilitam para idosos super saudáveis, mães com criança de colo fora do carrinho de bebê e deficientes visivelmente estropiados, trazidos pelo acompanhante normal.
E se não chegar ninguém precisando, deixo as senhas extras no lixo, que o caixa pula o numero se ninguém responder.
Também quero ser anjo de fila.


Mais uma razão pra sangrar

Another reason to bleed


Ouvindo uma musica dos Foo Fighters "All my life", tive uns insights sobre a minha vida.
Algumas pessoas interagem comigo fazendo meu coração sangrar, outras fazem meu coração incandescer, ou gelar até ficar dormente.
É difícil explicar, mas a dinâmica de relação com elas é totalmente instável e passional, cheia de altos elevadíssimos e baixos profundos.
Totalmente estressante.
Estes relacionamentos ressuscitam velhos fantasmas adormecidos que voltam a uivar na minha alma causando momentos de êxtase e dor igualmente intensos.
Posso até me perder destas pessoas, mas é incrível como quando as reencontro, tudo volta a ser do mesmo jeito, porque elas sempre estimulam a mesma antiga reação.
Acredito que elas entram na nossa vida pra remexer sentimentos e fazer voar tudo pro alto. Para que preconceitos se quebrem e o velho seja destronado pelo novo.
Não existe transformação indolor. E geralmente é catalisada por algo ou alguém.
É uma justificativa razoável para explicar por que a gente passa por este tipo de coisa.
Quando o sentimento amadurece o suficiente, mudamos pra uma nova fase, e atraímos pessoas diferentes pra nosso universo.Outro tipo.
Gente que nos traz paz e tranqüilidade, sentimentos intensos também, mas doces.
Este tipo de relacionamento é repousante, é como tirar férias do sofrimento.
São pessoas despertam carinho e amor sem stress, e conseguem revelar facetas da nossa personalidade que nem sonhávamos possuir. Fazem a gente se sentir um ser humano melhor, mais feliz, e mais completo.
É uma troca suave, sem dor, harmoniosa.
Seria fantástico se as relações com todo mundo pudessem ser assim, mas ai talvez as forças que colocam as mudanças em movimento, não aconteceriam.
Acho que temos que agradecer por poder mudar.
Apesar de tudo, o que eu quero pro resto da minha vida, é que ela flua com o menor esforço possível.
Por isso estou colocando as pessoas estressantes que conheço em porta-retratos.
Com todo carinho, e que fiquem somente neles, para sempre se possível for.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Anos 80

Anos 80

Andei me afogando em memórias.
De um tempo que eu era feliz e não sabia.
Nenhum adolescente sabe.
Eu me achava deslocada.
Era solitária, medieval.
Usava pretos de todos os tipos.
Arrastava cabelos longuíssimos.
Fazia poesia escrita e ilustrada.
Ouvia Depeche Mode, Siouxsie and The Banshees.
Dançava sozinha, dormia com uma espada e uma rosa, imaginárias.
Mas a rosa era vermelha, ficava na mão esquerda, e os braços eram cruzados sobre o peito.
E estudava. Muito. Muito mesmo. De química orgânica a bruxos antigos.
Amei os anos 80.
Mas queria muito voltar pro meu planeta natal.
Que eu não tinha certeza qual seria.
Eu era crente na vida, inocente.
Um dia me disseram que aos 21 anos eu saberia todas as respostas ou quase todas elas. E eu soube de muitas. Boas e ruins.
E fui deixando de ser inocente.
Até que um dia tentaram matar meu espírito.
Foi ai que adoeci.
E até hoje persigo a cura.

domingo, 17 de maio de 2009

Sorriso

Sorriso

Tem gente que nem sorrir pode.
Porque tem paralisia facial, ou não tem dentes.
Não sabe, ou não quer.
Ou tem medo.
Fiquei feliz de descobrir que eu ainda posso!
Vou me esforçar mais e tentar praticar!
Porque poder sorrir é uma benção como a saúde,
a gente só descobre que faz falta depois que não tem mais.


Transmutação

Transmutação



Muita gente morre antes de ter a chance de reavaliar a própria vida e mudar o que tiver vontade. As pessoas não conseguem ver com clareza o que pode ser melhorado porque atribuem valor exagerado a coisas sem importância e desconsideram outras que são vitais.
Pequenos detalhes podem mudar o rumo da humanidade toda.
Previsões em geral são feitas muitas vezes com base em sutilezas, e percepções subjetivas.
Simpatias e antipatias por pessoas, ideologias discutíveis e outros critérios tendenciosos direcionam o rumo de alguns eventos cruciais.
Para se ter a real dimensão dos problemas e entender a dinâmica desta engrenagem chamada Cosmos, é preciso deitar no chão numa noite sem lua.
Depois olhar cada estrela que estiver visível alcançando a luz que ela emite com o fundo dos nossos olhos.
Sentir o peso do universo em movimento sobre o nosso espírito.
Perceber a irrelevância das coisas mundanas diante desta imensidão, e identificar o que realmente vale a pena.
Ai então é só ir deixando cair pelo caminho, toda a bagagem extra, os sentimentos inúteis, as idéias pequenas e levar adiante somente o essencial. Que, parafraseando Exupéry...é invisível aos olhos (mas não para o coração).

Noite sem lua

Noite sem lua



Algo cresce em de mim em noite de céu estrelado
Me atrai o azul profundo
Fagulhas dos astros me fazem sonhar
Mergulho no espaço
Risco o ar frio
Deixo um brilho neste rastro
O infinito me inunda
Sinto sua imensidão
Meu espírito se expande e explode em luz
Me desmancho em universo

Para Adormecer

Para Adormecer



Como perfume, recolhida ao frasco,
Tampo o gargalo com minhas pálpebras.
O aroma contido se contrai na penumbra.
Os sons fogem ao longe.
Um único ponto de escuridão se abre e expande
Meu corpo se desmancha em maciez, fluidez, silêncio,
E mergulho deslizando, flutuando por todos os andares:
Os caleidoscópicos e incompreensíveis,
As zonas em todos os tons de cinza e negro do medo,
As bibliotecas colecionadas por milênios,
O sótão cheio de lembranças, pessoas e coisas.
Para sair do outro lado,
Onde só há Luz, Amor e Felicidade.

sábado, 16 de maio de 2009

Minha criança interior quer

Minha criança interior quer




Colo macio e quentinho.
Carinho no cabelo.
Dormir despreocupada.
Comer e beber coisas gostosas.
Aprender coisas novas.
Desenhar.
Brincar de sonhar.
Muitas flores.
Perfume de flores.
Brincar na água e no sol.
Deitar no chão para olhar as nuvens de dia e as estrelas de noite.
Ver os anjos, e as fadas.
Falar com Deus o tempo todo porque Ele é muito interessante e sabido.
Proteção de Mãe Maria.
Acreditar que todo mundo é bom.
Não ver mais tristeza no mundo.
Ser aceita como ela é.

Na casa que eu estou construindo

Na casa que eu estou construindo tem



Marido feliz, crianças sorrindo: filho, netos...
Chão limpo pra poder andar de meia.
Banheiros perfumados.
Quartos arejados, acolhedores, cheios de luz.
Sala grande com boa mesa.
Cozinha espaçosa com tudo que tem direito.
Toalhas que não arranham e cobertores que não pinicam.
Edredom macio, roupa de cama cheirosa.
Travesseiros de penas.
Chuveiro forte e quentinho.
Despensa cheia. Armários enormes.
Jardineiras com flores, vasos com ervas, talvez um pé pequeno de fruta.
Camas fofinhas, sofás confortáveis.
Sopinhas, café com leite, chazinho, chocolate quente ou frio, sucos diferentes.
Pão com manteiga, salada de frutas. Biscoitos, doces em calda.
O estrogonofe e a bacalhoada da minha mãe, o nhoque e a macarronada da minha avó, o iogurte caseiro do meu pai, o sanduíche de filé do marido.
Musica em todos os ambientes. Vários aparelhos multimedia.
Escritório organizado. Muitos livros, algumas pinturas e esculturas da casa do meu avô. Fotografias da família.
Tapetes e objetos bonitos. Quarto de hóspedes.
Espaço de sobra pra guardar e organizar lembranças queridas.
Amor, Paz, Harmonia, Felicidade, Entusiasmo, Alegria, Pureza, Tranqüilidade,
Proteção e a Luz do Pai em tudo e em todos.

Na casa da minha mãe tem

Na casa da minha mãe tem




Minha mãe e meu pai, Amor e Espiritualidade.
Jardim com flores, xaxins de hortênsias, piscina, árvores de frutas.
Três andares. Varandinhas lá no alto, quartos ensolarados, vitral de Nossa Senhora no alto da escada.
Chão de tábua lisinho, tapetes, milhões de porta retratos, lareira e uma mesa que cabe a família toda.
Lá tem sopinha na janta, estrogonofe, bacalhoada no almoço, suco, iogurte caseiro, e mamão no café.
Nos finais de semana tem lanche da tarde com pão, frios, queijo e doces, com chá e leite.
Tem rede na varanda, tem lareira acesa nos dias frios, batata assada na lareira, e mergulhos azuis no verão.
Tem pernilongo, mosquitos, abelhas e telas furadas nas janelas.
Tem meus pertences de criança, e muitas coisas do meu passado de adulta.
Tem coisinhas de criança do meu filho.
Tem meu pai com o chapéu e o esguicho do jardim na mão.
Minha mãe com um paninho caçando sujeira.
Tinha minha avó lendo a Bíblia num canto.
E ainda tem muito do que eu sou ainda.

Na casa da minha avó tinha

Na casa da minha avó tinha



Minha avó e meu avô, muito Amor e cuidados.
Porão alto com gradinhas pra rua, janelas de tábua, forro de madeira, piso de tábua corrida com tapete de linóleo, varanda de caco de cerâmica, banheiro do lado de fora, tanque de pedra, um pé de figo no quintal, parreira, touceira de arruda e comigo-ninguém-pode, corredeira de formiguinhas pretas, oração atrás da porta da cozinha e gatos que sumiam sem explicação.
Lá eu comia macarrão com frango, nhoque, gelatina, pão doce, canja, canjica, queijo com goiabada.
Bebia leite com café pingado, refrigerante de maçãzinha e chá de erva doce.
Rezava pra Nossa Senhora Aparecida na penteadeira dela.
Brincava com as tintas e canetas de pena metálica nos papéis coloridos do meu avô. Na máquina de escrever dele escrevi meu primeiro poema.
Fuçava nos armários pra olhar os vestidos antigos da minha mãe.
Fazia cabana de sombrinhas. Ouvia rádio com meu avô.
Ouvia as histórias dele, e lia os livros dele.
Meus avós se mudaram e a casa quase centenária foi demolida pelo proprietário.
Na casa nova da minha avó tinha:
Jardim com roseiras, hortênsias, e um salgueiro maravilhoso.
Leãozinho dourado na aldrava da porta.
Cachorros, dois. Um de cada vez.
Sofá grande, salas cheias de pinturas lindas, estantes repletas de livros interessantes e raros.
Passarinho, quintal de caco de cerâmica, edícula cheia de tralhas.
Continuou tendo sopinha, rosca, doce, refrigerante, macarrão e nhoque.
Mas meu avô morreu. Minha avó ficou sozinha e se mudou para a casa da minha mãe.
E agora está na casa de repouso, porque precisa de muitos cuidados, e lá é a ultima casa dela.