domingo, 17 de maio de 2009

Sorriso

Sorriso

Tem gente que nem sorrir pode.
Porque tem paralisia facial, ou não tem dentes.
Não sabe, ou não quer.
Ou tem medo.
Fiquei feliz de descobrir que eu ainda posso!
Vou me esforçar mais e tentar praticar!
Porque poder sorrir é uma benção como a saúde,
a gente só descobre que faz falta depois que não tem mais.


Transmutação

Transmutação



Muita gente morre antes de ter a chance de reavaliar a própria vida e mudar o que tiver vontade. As pessoas não conseguem ver com clareza o que pode ser melhorado porque atribuem valor exagerado a coisas sem importância e desconsideram outras que são vitais.
Pequenos detalhes podem mudar o rumo da humanidade toda.
Previsões em geral são feitas muitas vezes com base em sutilezas, e percepções subjetivas.
Simpatias e antipatias por pessoas, ideologias discutíveis e outros critérios tendenciosos direcionam o rumo de alguns eventos cruciais.
Para se ter a real dimensão dos problemas e entender a dinâmica desta engrenagem chamada Cosmos, é preciso deitar no chão numa noite sem lua.
Depois olhar cada estrela que estiver visível alcançando a luz que ela emite com o fundo dos nossos olhos.
Sentir o peso do universo em movimento sobre o nosso espírito.
Perceber a irrelevância das coisas mundanas diante desta imensidão, e identificar o que realmente vale a pena.
Ai então é só ir deixando cair pelo caminho, toda a bagagem extra, os sentimentos inúteis, as idéias pequenas e levar adiante somente o essencial. Que, parafraseando Exupéry...é invisível aos olhos (mas não para o coração).

Noite sem lua

Noite sem lua



Algo cresce em de mim em noite de céu estrelado
Me atrai o azul profundo
Fagulhas dos astros me fazem sonhar
Mergulho no espaço
Risco o ar frio
Deixo um brilho neste rastro
O infinito me inunda
Sinto sua imensidão
Meu espírito se expande e explode em luz
Me desmancho em universo

Para Adormecer

Para Adormecer



Como perfume, recolhida ao frasco,
Tampo o gargalo com minhas pálpebras.
O aroma contido se contrai na penumbra.
Os sons fogem ao longe.
Um único ponto de escuridão se abre e expande
Meu corpo se desmancha em maciez, fluidez, silêncio,
E mergulho deslizando, flutuando por todos os andares:
Os caleidoscópicos e incompreensíveis,
As zonas em todos os tons de cinza e negro do medo,
As bibliotecas colecionadas por milênios,
O sótão cheio de lembranças, pessoas e coisas.
Para sair do outro lado,
Onde só há Luz, Amor e Felicidade.

sábado, 16 de maio de 2009

Minha criança interior quer

Minha criança interior quer




Colo macio e quentinho.
Carinho no cabelo.
Dormir despreocupada.
Comer e beber coisas gostosas.
Aprender coisas novas.
Desenhar.
Brincar de sonhar.
Muitas flores.
Perfume de flores.
Brincar na água e no sol.
Deitar no chão para olhar as nuvens de dia e as estrelas de noite.
Ver os anjos, e as fadas.
Falar com Deus o tempo todo porque Ele é muito interessante e sabido.
Proteção de Mãe Maria.
Acreditar que todo mundo é bom.
Não ver mais tristeza no mundo.
Ser aceita como ela é.

Na casa que eu estou construindo

Na casa que eu estou construindo tem



Marido feliz, crianças sorrindo: filho, netos...
Chão limpo pra poder andar de meia.
Banheiros perfumados.
Quartos arejados, acolhedores, cheios de luz.
Sala grande com boa mesa.
Cozinha espaçosa com tudo que tem direito.
Toalhas que não arranham e cobertores que não pinicam.
Edredom macio, roupa de cama cheirosa.
Travesseiros de penas.
Chuveiro forte e quentinho.
Despensa cheia. Armários enormes.
Jardineiras com flores, vasos com ervas, talvez um pé pequeno de fruta.
Camas fofinhas, sofás confortáveis.
Sopinhas, café com leite, chazinho, chocolate quente ou frio, sucos diferentes.
Pão com manteiga, salada de frutas. Biscoitos, doces em calda.
O estrogonofe e a bacalhoada da minha mãe, o nhoque e a macarronada da minha avó, o iogurte caseiro do meu pai, o sanduíche de filé do marido.
Musica em todos os ambientes. Vários aparelhos multimedia.
Escritório organizado. Muitos livros, algumas pinturas e esculturas da casa do meu avô. Fotografias da família.
Tapetes e objetos bonitos. Quarto de hóspedes.
Espaço de sobra pra guardar e organizar lembranças queridas.
Amor, Paz, Harmonia, Felicidade, Entusiasmo, Alegria, Pureza, Tranqüilidade,
Proteção e a Luz do Pai em tudo e em todos.

Na casa da minha mãe tem

Na casa da minha mãe tem




Minha mãe e meu pai, Amor e Espiritualidade.
Jardim com flores, xaxins de hortênsias, piscina, árvores de frutas.
Três andares. Varandinhas lá no alto, quartos ensolarados, vitral de Nossa Senhora no alto da escada.
Chão de tábua lisinho, tapetes, milhões de porta retratos, lareira e uma mesa que cabe a família toda.
Lá tem sopinha na janta, estrogonofe, bacalhoada no almoço, suco, iogurte caseiro, e mamão no café.
Nos finais de semana tem lanche da tarde com pão, frios, queijo e doces, com chá e leite.
Tem rede na varanda, tem lareira acesa nos dias frios, batata assada na lareira, e mergulhos azuis no verão.
Tem pernilongo, mosquitos, abelhas e telas furadas nas janelas.
Tem meus pertences de criança, e muitas coisas do meu passado de adulta.
Tem coisinhas de criança do meu filho.
Tem meu pai com o chapéu e o esguicho do jardim na mão.
Minha mãe com um paninho caçando sujeira.
Tinha minha avó lendo a Bíblia num canto.
E ainda tem muito do que eu sou ainda.

Na casa da minha avó tinha

Na casa da minha avó tinha



Minha avó e meu avô, muito Amor e cuidados.
Porão alto com gradinhas pra rua, janelas de tábua, forro de madeira, piso de tábua corrida com tapete de linóleo, varanda de caco de cerâmica, banheiro do lado de fora, tanque de pedra, um pé de figo no quintal, parreira, touceira de arruda e comigo-ninguém-pode, corredeira de formiguinhas pretas, oração atrás da porta da cozinha e gatos que sumiam sem explicação.
Lá eu comia macarrão com frango, nhoque, gelatina, pão doce, canja, canjica, queijo com goiabada.
Bebia leite com café pingado, refrigerante de maçãzinha e chá de erva doce.
Rezava pra Nossa Senhora Aparecida na penteadeira dela.
Brincava com as tintas e canetas de pena metálica nos papéis coloridos do meu avô. Na máquina de escrever dele escrevi meu primeiro poema.
Fuçava nos armários pra olhar os vestidos antigos da minha mãe.
Fazia cabana de sombrinhas. Ouvia rádio com meu avô.
Ouvia as histórias dele, e lia os livros dele.
Meus avós se mudaram e a casa quase centenária foi demolida pelo proprietário.
Na casa nova da minha avó tinha:
Jardim com roseiras, hortênsias, e um salgueiro maravilhoso.
Leãozinho dourado na aldrava da porta.
Cachorros, dois. Um de cada vez.
Sofá grande, salas cheias de pinturas lindas, estantes repletas de livros interessantes e raros.
Passarinho, quintal de caco de cerâmica, edícula cheia de tralhas.
Continuou tendo sopinha, rosca, doce, refrigerante, macarrão e nhoque.
Mas meu avô morreu. Minha avó ficou sozinha e se mudou para a casa da minha mãe.
E agora está na casa de repouso, porque precisa de muitos cuidados, e lá é a ultima casa dela.

Casa de repouso


image by Mike R Frenette http://milkteets.blogspot.com/
Casa de repouso
Resolvi mandar um cobertor de presente para a minha avó que completou 93 anos pouco depois de quase morrer de pneumonia, duas semanas antes do aniversário dela.
Parecia uma ótima idéia já que ela tem mais perfumes, camisolas, chinelos e sabonetes do que vai conseguir usar ainda em vida.
Tentei comprar e mandar pela internet já que moro em outro estado. Não deu, o cobertor acabou e a loja devolveu o dinheiro.
Como eu já tinha avisado a ela que ia chegar um cobertor tecnológico, muito fofo e levezinho, resolvi comprar e levar eu mesma.
Depois da doença ela foi para uma casa de repouso já que minha mãe e meu pai também idosos não conseguem mais erguê-la sozinhos. É uma casa de velhinhas quase todas com Alzheimer.
Ela agora não tem doença nenhuma além da velhice, e esta mais saudável do que eu estarei aos 93anos. Tem uma memória prodigiosa e um raciocínio impressionante, faz até contas de cabeça.
Liguei pra minha mãe pedindo pra avisar que eu levaria o cobertor pessoalmente quando fosse para lá.
Minha mãe disse:
-Não faça isso comigo!
-Como assim mãe? Não entendi.
-Sua avó vai me dar um trabalho danado, porque fica muito brava quando as outras velhinhas querem pegar as coisas dela.
Porque foi que não passou pela minha mente que numa casa cheia de mulheres, uma mulher pegar as coisas da outra fosse dar em confusão? E ainda por cima numa casa onde elas são velhinhas, carentes e sem memória alguma.
Não sei como não pensei nisso antes. Talvez porque eu não tenho irmãs. Imagine só, se isso já é comum em qualquer grupo de mulheres, neste caso então é fatal.
Disse à minha mãe:
-Vou mandar bordar o nome completo dela no cobertor!
-Não vai adiantar filha, elas pegam assim mesmo. As enfermeiras tiram do quarto, vai dar em confusão. Sua avó fica possessa.
-Já prometi mãe, agora levo. Se ela não quiser ficar com o cobertor lá, trazemos de volta.
Fiquei imaginando a cena:
Minha avó chega na sala de TV e pega outra velhinha babando no cobertor dela. Ela chama a enfermeira e pede a devolução do mesmo.
A enfermeira pede de volta à velhinha com Alzheimer que diz:
-Não devolvo, é meu!
-Como sabe que é seu?
-Tem meu nome escrito nele!
-Mas não é seu nome não, você não se lembra não é?
-Se está escrito, então é meu nome porque o cobertor é meu, e está comigo.
Se eu fosse a enfermeira diria:
-Você se enganou, seu nome é “Parahyba” ou “Buddemeyer” (mostrando a etiqueta de outro cobertor), este aqui é o seu.
Afinal de contas, depois de um minuto ela não se lembraria de mais nada.