segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Pequenos milagres

Pequenos milagres




O dia a dia é feito deles. Mas a gente não percebe.
Aquele programa de TV que você pega no meio, mas assiste justamente a parte que você precisava ver.
O site na Internet em que você entra por acaso, mas que tem todas as informações que você buscava de um assunto que estava esquecido.
O dinheiro da restituição do IR que aparece justamente quando você esta na pendura.
O livro que sua amiga lhe dá e que ilumina uma parte sombria da sua vida.
A música que diz exatamente como a você se sente, compartilhando um momento triste, como o conforto de um ombro amigo.
As coisas que surgem do nada, na ultima hora, no ultimo minuto, em nosso socorro.
Os anjos encarnados que entram em nossas vidas às vezes apenas por um breve momento, e redirecionam o nosso rumo pra luz.

Entretelas de jardins

Entretelas de jardins

Uma filosofia oriental diz que a vida do ser humano é como um tapete cheio de tramas, urdiduras e bordados.
Demorei a captar a mensagem, mas um dia eu entendi.
Aos oito anos morei numa casa inglesa com um parque tipicamente inglês cheio de flores inglesas bem na porta.
Passei férias de verão em Paris vendo telas vivas nos jardins verdes e também nos “jardins” emoldurados nas grandes galerias dos museus.
Daí vem minha enorme nostalgia ao ver pinturas de Monet e outros como Klimt e Van Gogh, criaturas ecológicas já no milênio passado.
As lindas distorções e mutações de cores que Van Gogh e Monet amavam reproduzir a cada nova estação do ano, só pude compreendê-las já adulta estudando os cones e bastonetes do olho humano.
Então pude enxergar os jardins como eles os viam.
O primeiro em sua encantada loucura e o segundo em sua fantástica e progressiva cegueira.
Com minha mãe que foi pintora antes de virar psicóloga, eu aprendi a ver as telas de dentro pra fora. Perceber o sentimento, tentar adivinhar o pensamento do pintor em cada pincelada.
E ai sim estender isso para o interior do ser humano. Virar o tapete do avesso, analisar a trama, a urdidura, os bordados e o capricho no arremate.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Alma Curiosa

Alma Curiosa

Outro dia no aeroporto lotado, esperando um vôo da ponte aérea que nunca chamava para o embarque, tive uma vontade estranha.
Imaginei como seria se eu fosse um anjo que pudesse sobrevoar os grandes locais públicos, como aeroportos, metrôs, mercados, shopping-centers, edifícios públicos, clubes, parques, campos de futebol, etc...
Só que num horário bem tarde da noite, naquela certeza de que a maior parte dos homens esta na cama, sonhando com as coisas do dia a dia, e com aquilo que é o desejo do coração de cada um deles.
Eu voaria do alto olhando o telhado dos edifícios, planando sobre eles e imaginando como seria a planta daquelas construções. Depois desceria suavemente nos escritórios e prédios, e procurando uma janela aberta, entraria deslizando como um vento fresco, sem tocar os pisos perfumados de desinfetante, resultado da faxina noturna.
Percorreria os longos e vazios corredores de granito, atravessando portas fechadas e entrando em salas cheirando a carpete, imaginando quem ali trabalharia de dia. Quem mexeria naqueles papéis, quem sentaria naquelas cadeiras? Andaria pelas plataformas do metrô ouvindo de longe o guinchar de um trem solitário, vendo a marca dos milhões de sapatos que esperam na linha amarela que fica no chão. Quem são estes que viajam todos os dias? Quantos deles são felizes? Pra onde vão? Quantos deles irão morrer hoje?
Entraria nos mercados vendo a limpeza, as pessoas que nunca dormem de noite pra que outras comprem de dia, sentindo o cheiro úmido de frutas podres e legumes murchos, ouvindo os ecos de ruídos estridentes de caixas arrastadas. Faria um passeio no shopping vazio, brilhando na noite como uma caixa de jóias envidraçada, cheia de figuras imóveis e objetos aguardando um dono, e assopraria no ouvido do guarda adormecido.
Pousaria agachada no encosto do banco do parque, minhas asas fechadas molhadas de sereno, e observaria os animais noturnos perderem a timidez e se revelarem na noite da cidade, sob as estrelas. Quantas pessoas passam por ali todos os dias, e nem suspeitam da fauna oculta pelas sombras...
Planaria sobre o cais parado ouvindo o mar logo embaixo, vendo os ganchos escuros e as correntes, sentindo a maresia. Desceria nas fábricas vazias, vendo as caixas e os galões, pensando nos homens que os transportam, distribuem e guardam. Quem os compraria?
Sentiria em cada lugar silencioso, na cadeira desocupada, no corredor vazio, na rua solitária, nas máquinas paradas, a presença daqueles que durante o dia, desejam, sonham, sofrem e vivem ali. Adivinhando cada gesto, cada ausência naquela noite.
Voaria alto entre os prédios adormecidos.
Subiria na antena do pico mais elevado, ficaria na pontinha dos pés e abriria totalmente meus braços e as minhas asas, pra escancarar meu coração e derramar amor pela humanidade... de...uma...só....vez!


Imagem de Linda Gadbois

Amigos do Orkut

Amigos do Orkut

Tem gente com cem amigos, outros com duzentos, trezentos, sei lá...
Gente que mal entra no site e uma semana depois já tem cinquenta, cem.
Eu fico morrendo de inveja. Queria ter tanto amigo assim. Puxa vida!
Porque amigo meu de verdade, daqueles que saem de pijama no meio da noite chuvosa pra me socorrer, acho que cabem numa só das minha mãos, e ainda sobra vaga em um dedo ou outro.
Colega de trabalho tenho aos montes. Amigos dos amigos. Conhecidos meus, do meu marido, dos meus pais, do meu irmão, dos meus primos. Parentes de conhecidos dos amigos. Tem até gente que me conhece mas eu nem sei quem é. Verdade mesmo. Isso eu tenho de baciada. Dava pra fazer um numero bonito pro orkut. Mas não são meus amigos. São só conhecidos contatos profissionais, sociais, clientes. Na minha cidade natal sou praticamente pessoa pública. Já pensou se todos quiserem me adicionar no orkut? Credo!
Aí fiquei pensando. Onde andariam as pessoas do passado de quem eu me lembro? De quem vez ou outra eu sinto falta? Onde estarão? Não sei, não achei. E fiz a busca direito.
Eu sei que não cultivei relacionamentos. Não mesmo. Pelo contrário, fiz questão de botar ponto final em muitos. E também não deixei rastros e nem contatos. Pra ser sincera eu sumi mesmo. Literalmente casei e mudei.
Posso garantir também que quase virei outra pessoa, e possívelmente os meus amigos do passado também. Então não tem sentido ficar procurando ninguém.
Mesmo que a gente se achasse não se reconheceria. Físicamente até.
Tem mais. Minha geração usa pouco a internet. Minha categoria profissional também. Somos do tempo de furar cartãozinho no vestibular. Menos motivo ainda pra procurar gente no orkut.
Aliás não foi no orkut que achei conhecidos perdidos de longa data. Foi no Friends Reunited. Um site do Reino Unido que tem a escola onde estudei por dois anos. Nenhum deles é meu amigo hoje. E nem foi na época, eramos “amigos” porque éramos crianças da mesma classe. Mas foi ótimo ler os testemunhos de coisas acontecidas trinta anos atrás, e saber da vida de gente que considerava sumida. Li sobre as vidas dos canadenses, australianos, ingleses, paquistaneses e iraquianos da minha classe. Deixei o meu testemunho por lá. Lembrei de nomes, rostos e coisas longamente esquecidas.
Ninguém ali professa amizade a ninguém, mas troca pedacinhos de lembranças, que como um quebra-cabeças remonta uma parte da nossa infância. Isso eu achei legal, isso fez bem ao meu coração.

Morangos e a Inveja

Morangos e a Inveja





Inveja é assim: se eu não tenho então você também não pode ter.
E se ousar ter, eu destruo.
Eu estava escolhendo uns morangos lindos no supermercado e já tinha pego três caixinhas.
Chega uma mulher mais velha, ar de classe média e espia as minhas caixinhas de morangos dentro do carrinho, e nem olha as que estavam expostas na banca de frutas.
-Tão bonitos né? Vermelhinhos...
E eu olhando com aquela cara de quem não ta muito a fim de papo:
-Estão sim!
Ela olhando a plaquinha de preço:
- Ahhh... mas deve ser daquele que é duro e sem gosto!!!
E ficou esperando que eu devolvesse as caixinhas pra banca.
Ignorei e sai lentamente empurrando o carrinho.
Ela não se agüentou e soltou esta:
-Vão estragar num instante, tão maduros demais.
Nem respondi.
Estavam ótimos.Comemos todos.
Lembrei da fabula de La Fontaine sobre a raposa e as uvas.

A Conta do Inferno e o Anjo da Fila

A Conta do Inferno e o Anjo da Fila

Esqueci de pagar uma conta do final do mês. Até porque esta era a primeira conta nesta data. Todas são no começo.
Calculei juros, mora, tentei via internet, nada.
Caixa eletrônico, nada. Impagável.
Passei o final de semana inteiro tentando, e tudo somou cinco dias de juros.
Resolvi pagar no banco. Se não fosse a única saída, jamais seria a minha opção final.
O Inferno:
Dia primeiro, Banco do Brasil, agência Colombo, Copacabana, lotada!
Levei meu filho junto. Ambos morrendo de fome, com vontade de ir ao banheiro.
A fila dos idosos estava ainda pior, já que neste bairro de 2 milhões de pessoas eles são maioria.
As velhinhas não paravam de falar nunca! Uma moça saiu da fila comum e sentou-se numa cadeira junto com elas. Lá do fundo uma velhota rouca gritava:
-Não pode sentar aí não! É só pra idoso!
Gritou três vezes.
A moça acabou respondendo:
-Não vou passar na frente, a minha fila é a outra, só quero sentar!
A velhota enlouquecida:
-Não pode, não pode! Fala pra ela sair daí!
A moça com cara de dor:
-Eu fiz cesárea tá?! Meu corte está doendo de ficar de pé, quero sentar um pouco! Posso?
Agora todas as harpias em coro responderam:
-Não! Aqui é só pra idoso!
A moça fez cara de indignação e voltou mancando pra nossa fila.
Dois minutos depois um velhote vai direto ao caixa e diz:
-Eu tenho isquemia cerebral, vai me atender?
E o caixa:
-Só se a fila de idosos deixar.
A primeira velha da fila:
-Por mim eu deixo.
A segunda em tom doutoral:
-Isquemia cerebral é crônica, ele vive assim, e nem está torto nem nada. Não vai passar não!
A filha do velhinho implora:
Mas ele só quer encerrar a conta no banco, e sacar R$1,70, pode?
Todas as velhinhas gritaram em tom indignado:
-Nãoooooooo!
Os dois fizeram muxoxo e saíram do banco.
Cerca de uma hora e quarenta depois, quase na boca do caixa, outra velhinha que estava na fila normal (devia ser proibido), logo atrás de nós, muito sutil, berra do nada apontando meu filho com o indicador:
-Nossa é um menino! E eu pensei que era menina!
Ele se parece com um anjo mal humorado e usa o cabelo mais comprido que o meu.
Eu e um cara do lado caímos na risada. Meu garoto nem percebeu.
E ela ainda olhando espantada:
-Poxa mas ele é bonito! Até parece uma moça!
E eu pensando: agora sim, feliz dela que ele não ouviu isso!
Fiz um gesto com a mão significando: ela fala demais! O cara do lado continuou rindo.
Chegamos finalmente ao caixa, para descobrir que a minha conta só seria paga na Caixa Econômica Federal e em nenhum outro banco do universo conhecido.
Eu reclamei que o atendente da entrada garantiu que eu poderia pagar lá, mas o caixa sugeriu que eu estava autorizada a esganar o sujeito por isso. E não aceitou o pagamento de jeito nenhum.
Tirei o dinheiro e toca ir para a Caixa com um bolão de notas no bolso.
O purgatório:
No caminho minha sandália direita arrebentou.
Meu filho olhou consternado e disse:
-Tadinha! É mãe, as coisas negativas vão só se somando.
Por via das dúvidas mandei-o pra casa, e me arrastei sozinha, um pé descalço outro não, até lá.
Estava decidida a pagar a maldita conta e não me irritar de jeito nenhum.
Desci as escadas da Caixa mancando e pulando.
Quando peguei a senha, tinha mais de 50 números na minha frente.
Devo ter feito uma cara terrível, porque nessa hora apareceu um anjo.
Um moço engravatado me chamou e me deu uma senha 30 números mais baixa. Ainda não sei por que ele fez isso (seria a sandália ruim, minha cara de quem vai morrer?), mas agradeci muito!
Sentei conformada, e para minha surpresa o anjo voltou.
Pegou minha senha e trocou por uns oito números abaixo.
Nem sabia como agradecer. Fiquei espantada com tanta amabilidade depois de ver as velhinhas amargas expulsarem as pessoas da fila. Senti esperança renovada na humanidade.
Esperei, esperei mais uma hora e meia.
Finalmente chegou minha vez. O caixa que me atendeu tinha isquemia cerebral de verdade, uma feia seqüela de derrame. Estava meio torto, movia-se bem devagarzinho, e pensava lentamente. Este sim precisava estar em casa descansando, mas estava trabalhando coitado.
O céu:
Finalmente paguei e me mandei para casa, com fome, de bexiga cheia, tentando pisar no resto de sandália que sobrou, e bendizendo os anjos engravatados que tem piedade de nós.
Fui pensando: da próxima vez que eu ficar na fila do banco, vou pegar várias senhas e dar pras pessoas doentes ou necessitadas que chegarem depois de mim: mulheres com pontos na barriga, moças com pressão baixa, rapazes com o pé machucado, mães com crianças pequenas que não sejam mais de colo. Porque pra pessoas com menos de 65 anos aqui ninguém facilita, mesmo que estejam moribundas.
Só facilitam para idosos super saudáveis, mães com criança de colo fora do carrinho de bebê e deficientes visivelmente estropiados, trazidos pelo acompanhante normal.
E se não chegar ninguém precisando, deixo as senhas extras no lixo, que o caixa pula o numero se ninguém responder.
Também quero ser anjo de fila.


Mais uma razão pra sangrar

Another reason to bleed


Ouvindo uma musica dos Foo Fighters "All my life", tive uns insights sobre a minha vida.
Algumas pessoas interagem comigo fazendo meu coração sangrar, outras fazem meu coração incandescer, ou gelar até ficar dormente.
É difícil explicar, mas a dinâmica de relação com elas é totalmente instável e passional, cheia de altos elevadíssimos e baixos profundos.
Totalmente estressante.
Estes relacionamentos ressuscitam velhos fantasmas adormecidos que voltam a uivar na minha alma causando momentos de êxtase e dor igualmente intensos.
Posso até me perder destas pessoas, mas é incrível como quando as reencontro, tudo volta a ser do mesmo jeito, porque elas sempre estimulam a mesma antiga reação.
Acredito que elas entram na nossa vida pra remexer sentimentos e fazer voar tudo pro alto. Para que preconceitos se quebrem e o velho seja destronado pelo novo.
Não existe transformação indolor. E geralmente é catalisada por algo ou alguém.
É uma justificativa razoável para explicar por que a gente passa por este tipo de coisa.
Quando o sentimento amadurece o suficiente, mudamos pra uma nova fase, e atraímos pessoas diferentes pra nosso universo.Outro tipo.
Gente que nos traz paz e tranqüilidade, sentimentos intensos também, mas doces.
Este tipo de relacionamento é repousante, é como tirar férias do sofrimento.
São pessoas despertam carinho e amor sem stress, e conseguem revelar facetas da nossa personalidade que nem sonhávamos possuir. Fazem a gente se sentir um ser humano melhor, mais feliz, e mais completo.
É uma troca suave, sem dor, harmoniosa.
Seria fantástico se as relações com todo mundo pudessem ser assim, mas ai talvez as forças que colocam as mudanças em movimento, não aconteceriam.
Acho que temos que agradecer por poder mudar.
Apesar de tudo, o que eu quero pro resto da minha vida, é que ela flua com o menor esforço possível.
Por isso estou colocando as pessoas estressantes que conheço em porta-retratos.
Com todo carinho, e que fiquem somente neles, para sempre se possível for.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Anos 80

Anos 80

Andei me afogando em memórias.
De um tempo que eu era feliz e não sabia.
Nenhum adolescente sabe.
Eu me achava deslocada.
Era solitária, medieval.
Usava pretos de todos os tipos.
Arrastava cabelos longuíssimos.
Fazia poesia escrita e ilustrada.
Ouvia Depeche Mode, Siouxsie and The Banshees.
Dançava sozinha, dormia com uma espada e uma rosa, imaginárias.
Mas a rosa era vermelha, ficava na mão esquerda, e os braços eram cruzados sobre o peito.
E estudava. Muito. Muito mesmo. De química orgânica a bruxos antigos.
Amei os anos 80.
Mas queria muito voltar pro meu planeta natal.
Que eu não tinha certeza qual seria.
Eu era crente na vida, inocente.
Um dia me disseram que aos 21 anos eu saberia todas as respostas ou quase todas elas. E eu soube de muitas. Boas e ruins.
E fui deixando de ser inocente.
Até que um dia tentaram matar meu espírito.
Foi ai que adoeci.
E até hoje persigo a cura.