terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Sono e o Sonho





O Sonho

É um poema escrito a quatro mãos: mente e cérebro, sentimento e coração.
O corpo é a musa que como um presente vivo recebe as laçadas dos rolos de fitas gravados no inconsciente.
É a tela de projeção do caleidoscópico papel de embrulho feito de matéria etérea.
Ao acordar ele se vai elusivo. Se não o agarramos no segundo entre a vigília e o sono, nenhuma lembrança se fixa, nem do poema, nem da música, nem do filme. Tudo some.
O corpo se despe do presente evanescente, e passa de musa, a câmera, gravador e roteirista, poeta, compositor e diretor; dos próximos capítulos.

Meu sono
É um poema escrito a quatro mãos.
O cérebro suspira aliviado, a mente sorri com a liberdade, o coração se acalma com o conforto e os sentimentos param para dar lugar à insustentável leveza do ser..

Do alfa ao ômega

Do alfa ao ômega

Ninguém conseguiu me ensinar a viver, embora muita, mas muita gente mesmo tenha tentado, e por incrível que pareça...ainda há quem tente.
Não acho que posso dizer que aprendi. Nem mesmo sozinha. Ainda estou aprendendo.
Não me preparei pra viver, simplesmente fui vivendo conforme as coisas foram acontecendo na minha vida. Estivesse eu preparada ou não.
De algumas me sai mal, outras bem. Sempre aprendi alguma lição.
Não pude me preparar pra viver.
Mas posso me preparar pra morrer.
Reparei que venho me preparando pra isso mesmo sem querer.
Nada parecido com um testamento, rituais funerários ou mesmo algum tipo de suicídio teatral.
Venho me preparando pra um dia ter de ir embora. Porque esta é ainda única certeza que temos na vida.
As pessoas se chocam. Porque elas acham que estou me malagourando a mim mesma, se posso chamar assim. Ou porque estou deprimida. Ou qualquer outra besteira que não tem nada a ver com a minha realidade.
Estou muito bem.
Tão bem que vejo a vida diferente. Eu me emociono todo dia com ela.
Estar abraçada a quem eu amo é um presente de Deus.
Posso durar mais cinqüenta anos e vou viver cada dia como se fosse o último.
E aos poucos estou me despedindo, fazendo o luto da perda de mim mesma.
Suavemente, vivo esta despedida dia a dia. Celebrando o que eu amo.
Dando adeus ao que ficou para trás.
Quando de fato minha hora chegar, não terei esquecido de nada nem de ninguém. Vou levar tudo comigo no coração da alma.

Castelos de areia



Castelos de areia

Trancada em casa o dia todo, acabo assistindo mais TV do que o normal. Vi um programa onde um sujeito convocou voluntários para construir um castelo de 19m de altura e 100 metros quadrados, mas totalmente esculpido na areia.
O castelo ficou belíssimo com as esculturas, e a decoração feita pelos voluntários. Ficou 30 dias aberto à visitação do público, e depois foi brutalmente demolido com escavadeiras.
Uma das voluntárias confessou com lágrimas nos olhos que estava tentando guardar o castelo na sua mente. Porque mesmo que fizessem outro castelo de areia, nunca seria o mesmo.
É isso que o tempo faz com a gente. Cada segundo é único, e não tem como rebobinar a vida, reviver tudo igualzinho a partir de um determinado ponto. Algo sempre muda, mesmo que as coisas pareçam se repetir. Como naquele filme “Feitiço do Tempo”.
Quem assistiu lembra que mesmo na repetição, as coisas não saiam idênticas, porque o livre arbítrio do cara interferia com o resultado.
Ele tanto fez e repetiu que tudo ficou perfeito. E ele foi feliz para sempre.
Como já estive doente por dez anos seguidos, fico procurando no fundo da minha mente, alguma pista do que é que fiz de errado das outras vezes. Quero me curar de vez e não ter, nem repetir mais nenhuma doença. Agora só quero repetir as partes boas. Mesmo que não sejam replays perfeitos.

domingo, 20 de setembro de 2009

Nos braços de Morpheus

Nos braços de Morpheus




O despertador e eu temos um pacto involuntário. Basta que ele monte guarda ao meu lado, pra que eu acorde sozinha cinco minutos antes da hora. Abro os olhos e lá está ele sorrindo e mostrando as horas, dizendo que estou adiantada.
Mas o sono, amante possessivo com suas mãos poderosas, me puxa pela cintura de volta pra ele dizendo:
-Vem cá linda que temos mais cinco minutos de intimidade!
E eu me rendo ao abraço forte e macio de Morpheus, me aconchegando a ele no melhor sono da noite toda.
Acordo pouco depois, com o alarme ciumento como se tivesse dormido por horas, e deslizo suavemente pra fora deste idílio.
Difícil é encarar a vigilía do dia a dia.

sábado, 19 de setembro de 2009

Vida em branco e preto

Vida em branco e preto


Eu não quero minha vida em branco e preto, com emoções pequenas, sem ardor, sem paixão, sem arrebatamento. Não quero a rotina maçante, a mesmice medíocre de dias sempre iguais, sem novidades e sem desafios.
Não quero ter controle total das minhas emoções. Quero oscilar, navegar nelas nos dias calmos e enfrentar ondas vigorosas em tempestades. Que a batalha seja grande e a vitória ainda maior. Que o pensamento racional e lógico seja apenas a tela sobre a qual pinto uma paisagem profundamente calcada no emocional.
Não quero meu mundo pequeno. Não quero ver o céu de baixo, quero sempre um horizonte na minha frente. Não quero morrer escondida na luz fria de dentro de casa. Quero o sol por testemunha, a Lua por madrinha. Quero mudanças, fluidez dinâmica, renovação e caminhos. Muitos caminhos. Que eles sejam tantos, que eu tenha muita duvida para escolher. Que o destino se multiplique em milhares de janelas coloridas como um caleidoscópio, e eu me perca nele atraída pelos desenhos.
Que as surpresas sejam muitas e agradáveis e os imprevistos que as acompanham poucos. Quero dormir só pra aproveitar a dimensão do sono pra viver através do sonho. Quero que cada segundo da minha vida contenha tanta energia, que minha alma solte faíscas com a passagem do tempo.
Quero conhecer as múltiplas possibilidades dos universos paralelos e jogar interativamente em cada uma delas.
Quero uma sinfonia épica como trilha sonora de tudo.
Quero estar consciente de cada movimento, de cada cor, de cada sentimento, de cada cheiro em torno de mim. Da possibilidade da fantasia ser parceira da realidade em perfeita harmonia.
Que a aceleração, as paradas, as subidas e as descidas nunca sigam um padrão e minha sensação permanente seja um frio na barriga. Que tudo sejam sempre novidade e aprendizado, mas se não der, que as coisas repetidas sejam todas maravilhosas.
Só faço questão de constância em um aspecto, quero que aqueles que eu amo fiquem de vez na minha vida.

O Carteiro

O Carteiro



Anos atrás fiquei afastada após uma cirurgia. Nunca estou em casa e quase sempre tenho que ir buscar minha correspondência registrada na agência do correio mesmo. Mas no dia seguinte ao que sai do hospital, fui acordada às sete da manhã por um interfone ensandecido. Arrastei-me até ele morrendo de dor e atendi.
Era o carteiro: -É aqui que mora a Fabiana?
E eu me mal me agüentando de pé respondi: -Eu mesma porque?
E a voz dele berrando no interfone: -SEDEXXXXXSSSS!
Morava num sobrado, mas desci o mais rápido que consegui, pois estava sozinha e tinha de ser que eu mesma. Havia chegado meu esparadrapo antialérgico, que alívio!
Abri o portão. O moço alto me deu a caneta pra assinar o papel, e sem cerimônia, muito irritado, disparou:
- Eu estou tentando entregar isso há três dias, já ia desistir. Porque nunca ninguém atende?
E eu assinando:
-Porque eu estava internada.
Ele ficou olhando quieto, pegou a caneta de volta e me deu o sedex. Agradeci, e sai andando devagarinho abraçada ao pacote. O moço continuou lá olhando pelo buraco dos tijolos vazados no muro.
Pensei comigo que ele devia estar apostando que eu nunca chegaria na porta de casa mancando daquele jeito. Esqueci disso e nunca mais vi o carteiro.
Até um outro dia. Bem na hora do almoço, o mesmo toque desesperado de interfone quase me matou de susto. Estava lá o moço com outra caixa na mão.
Desta vez eu desci os degraus da escada de dois em dois e sai aos pulos de dentro de casa. Tinha chegado minha mesinha digitalizadora. Abri o portão e dei de cara com aqueles olhos grandes e a caneta em riste. Assinei, agradeci e entrei correndo pra guardar a caixa.
Tive que sair dois minutos depois porque estava muito atrasada, e notei que ele tinha acabado de partir com a moto amarela do correio.
Abri o portão eletrônico de casa e dei ré com o carro. Mas parei quando vi um dos tijolos vazados. Ele tinha deixado lá um raminho de flores vermelhas apanhado da cerca da vizinha, todo arrumadinho num canto, perto da caixa de correio.

O Moço das Rosas

O Moço das Rosas






Ele tinha uns dezessete anos e eu no máximo uns quinze. Era lindo e tinha um sorriso de derreter aço inox. Não creio que tivesse me notado, eu parecia uns doze, era magrela sem curvas, usava óculos e aparelho nos dentes.
Era órfão de pai e mãe, morava e trabalhava de sol a sol na floricultura da tia que o criou. Estudava de noite, com certeza já bem cansado, e eu morria de dó. A tia era uma mocréia velha e azeda com uma língua venenosa e um humor de cão que ninguém suportava. Ficava no caixa graças a Deus.
Ele no balcão vendia montes de violetas, orquídeas nos vasos, bromélias, copos de leite, lírios e lisianthus. Fazia um sucesso tremendo com as coroas e donas de casa, que o conheciam até pelo nome.
Mas o que mais o moço vendia eram buquês de rosas de todas as cores. Ele mesmo os arrumava com carinho. Ficavam lindos. Eu, criatura mística, no meu fervor devocional à Maria comprava rosas brancas uma vez por mês e oferecia à santa. Fiz isso durante muitos anos da minha vida.
Lógico que dava preferência aos ramalhetes do garoto. Eu e toda a clientela do bairro. A tia dele me parecia pura e simplesmente uma exploradora. Um tempo depois entendi melhor o que se passava.
O tal rapaz além de bonito e simpático, longe de se importar com o trabalho, tinha o carisma e o bom humor que faltavam àquela senhora. Ele era educadíssimo, e depois de fazer arranjos encantadores, entregava mais um ou dos botões extras à cliente, daquelas rosas que se não fossem vendidas naquele dia, murchariam sem abrir. Isso era sucesso de público garantido.
Ele entregava separado do resto, e em voz baixa como que escondido da tia-bruxa dizia:
- Estes dois são por minha conta, de mim pra você!
Este gesto simples era acompanhado de um enorme sorriso e visível satisfação em ver a alegria da cliente.
Na verdade, hoje sei que não se tratava de marketing da parte dele. Ele gostava de fazer aquilo do fundo do coração, gostava de ver os sorrisos. Qual é a mulher por mais velha que seja que não gosta que um homem, ainda que sem segundas intenções lhe dê uma flor? A tia que não era boba, nem reclamou e saiu do balcão deixando toda a ação pra ele. Velha esperta.
Depois de um tempo o moço sumiu. Se eu que era a cliente mais jovem não me esqueci dele, com certeza as outras também não.
Eu penso é que muitas mulheres nunca cruzam com aquele cara que vai dar a elas, o amor necessário pra que desabrochem, mesmo que este cara não se case com elas. O botãozinho de rosa murcha antes mesmo de abrir. Vai ver foi caso da tia dele.

Canção de Miguel




Canção de Miguel (Desconheço o autor)

"Arcanjo Miguel, Arcanjo Miguel, Arcanjo Miguel, Arcanjo Miguel
Arcanjo Miguel secciona tudo aqui em mim, que não seja, a Verdade, e a Vontade do Pai do Céu
Arcanjo Miguel, me envolve em teu brilhante azul, protegei minha aura, defendendo a minha fé,
Arcanjo Miguel, com a tua espada feita em Luz, corta os laços que me prendem, que me amarram na escuridão,
Arcanjo Miguel, me socorre em todos os conflitos, ilumina minha sombra escondida no coração."