terça-feira, 3 de novembro de 2009

Fios de Prata




Fios de Prata



Outro dia passeando pelas lojas fiquei encantada com um vestido longo lindo.
Era azul índigo bordado em fios de prata.
Apesar de tudo era simples, mas perfeito para usar num domingo, pensei comigo.
Dia do primeiro raio cósmico. Comprei.
Subindo sozinha no elevador sob a cruel luz fria e de frente para o espelho, vi meus cabelos: Raízes escuras nascendo sob o loiro.
Saudades dos meus cabelos escuros. Não davam trabalho antes de aparecerem os brancos.
Tive tempo de chegar mais perto e examinar com calma o cabelo crescido.
Foi só aí que vi a beleza dos fios de prata brilhando em meio às raízes escuras, exatamente como no meu vestido.
Fiquei muito emocionada e agradeci a Deus que em tudo pensa.
O tempo nos tira o frescor da juventude, a firmeza da pele, o brilho dos olhos, mas nos acrescenta um glamour todo especial.
Suaviza o rosto com fios prateados!
Mal posso esperar para ostentar cabelos completamente brancos.
Quero que o tempo me enfeite com uma brilhante cabeleira cor de prata!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Telefone sem fio



Telefone sem fio



É o pesadelo da casa.
Toca e ninguém sabe aonde direito.
Sai todo mundo correndo pelos cômodos, andar de cima, andar de baixo até achar...ou não. Isso também é válido para os cinco aparelhos de celular que coexistem num lar de três pessoas. Quando estão desligados, nem dá pra localizar ligando. Aí só esperando que eles voltem das férias no universo paralelo onde se meteram.
Minha luta incansável é para que botem o aparelho sempre na base. Até porque ele descarrega. Mas quem atende, sempre larga em qualquer canto até ele sorrateiramente sumir, geralmente no sofá.
É, no sofá junto com os dois controles remotos da TV. Ali some tudo.
Quando preciso já saio desmontando as almofadas e puxando a manta.
Caem coisas de todo tipo. Tesoura, papel de bala, lenço de papel assoado, um pé de meia, pipoca velha, bonecos de plástico, caixa de CD, chave de fenda...
Mas nem sempre acho os telefones. Encontro até mesmo verdadeiras preciosidades como o recibo da declaração do imposto de renda que estava na escrivaninha, ou mesmo um chiclete embalado e na validade.
Às vezes eu fico pensando que o sofá é o spa das utilidades domésticas.
Com suas dobras convenientes, oferece conforto e anonimato para descanso prolongado longe das tomadas e plugues. Em troca o sofá-spa é pago em restos de comida que digere lentamente.
Afora isso, contamos também com o elfo doméstico, aquele serzinho que mora nos cantos escuros e que adivinha o que você vai precisar, e corre na frente pra sumir com o objeto. Que aliás reaparece em outro lugar quando você não precisa mais dele.
Quem tem dois homens em casa como eu, sabe que eles nunca acham o que procuram. Mesmo que a tal coisa esteja exatamente onde você disse.
Ou seja, mesmo sem a ajuda do sofá e do elfo eu sou a procuradeira oficial de coisas na casa. Porque eles nunca acham nada.
E minha frase preferida é...-Tá vendo aí? Se fosse uma cobra te mordia!

O amor é cego





O amor é cego



E é! Totalmente cego. Nem é por causa daquele ditado “Quem ama o feio, bonito lhe parece!”. Porque quem ama pode até nunca ter visto seu objeto de amor e amá-lo assim mesmo.
Tem a historia mitológica de Eros e Psiquê. Ambos lindos, perfeitos, incríveis. Eros o belíssimo deus do amor vê Psiquê lindinha, e se apaixona por ela, sem que ela o conheça. Vai e pede sua mão em casamento com a condição de que ela nunca tente ver-lhe o rosto, e ela concorda. A mãe dela não gosta da idéia mas eles fogem assim mesmo.
Eles se casam e são muito felizes apesar de só se encontrarem de noite e no escuro. As irmãs de Psique com muita inveja dela, começam a dar palpites e sugerir que ela o veja de qualquer jeito quebrando a promessa que fez.
Psiquê com medo de que o marido seja muito feio e movida pela curiosidade, cede à tentação e quebra a promessa, acendendo uma luz no rosto dele. Eros cumpre sua ameaça de noivado e abandona a esposa que fica atordoada com a beleza do marido, ao mesmo tempo em que se descobre sozinha. Ela chora um rio de lágrimas e incomoda todos os outros deuses com pedidos de intercessão junto a Eros, mas ele não volta atrás. A única que lhe dá atenção é uma deusa que promete ajudá-la, caso Psiquê vá fazer uns serviços pra ela lá nos quintos dos infernos. E a boba vai, sem saber que a intenção da outra era deixar o maridão dela viúvo.
Nossa tolinha de miolo mole e Maria-vai-com-as-outras padece tanto nas terras de Hades, que o próprio Eros não suporta vê-la daquele jeito e a resgata das sombras, perdoando tudo. O final é feliz com os dois se amando muito à luz do dia, e a deusa malvada se rasgando toda de raiva.
Podemos tirar um montão de conclusões daí:
1- Eros queria ser amado pelo que era e não por sua beleza
2- Eros fez uma exigência desnecessária uma vez que ela já tinha topado casar com ele sem saber que ele era o deus do amor e, portanto já o amava.
3- Eros se deu mal, pois teve que cumprir uma promessa que o fez sofrer
4- Psiquê descobriu a duras penas que não devia ouvir palpites dos outros no seu relacionamento e que devia cumprir suas promessas.
5- Psiquê entendeu porque a curiosidade matou o gato
6- Psiquê quase se estrepa indo parar no antro da morte pra provar seu amor
7- A mãe de psique fala mil vezes que sabia que ia dar nisso e culpa o genro
8- Eros tem que engolir em seco e voltar atrás pra salvar aquela que ele ama
9- Psiquê entende que se conselho fosse bom a gente vendia, e saca o plano da deusa malvada
10- A deusa malvada se odeia por ter colaborado pra reconciliar os dois, e percebe que não adianta opor-se à vontade do chefe (ZEUS)
11- Eros se toca que podia ter sido tudo bem mais fácil desde o começo
12- Psiquê finalmente larga de ser tão inocente

Bem, eu me sinto um pouco Psiquê, pois me encanto com o conteúdo de pessoas que nunca vi, e que nem sei como são. Já fui raptada, e embora tenha cumprido todas as minhas promessas, também andei pelo vale da sombra e da morte, e fui resgatada. Faria tudo de novo. Valeu a pena. Apaixonar-me sempre valeu a pena.

O Anjo

O Anjo






Foi nos idos de sei lá quando. Foi muuuito tempo atrás mesmo. Eu era garota e estava ouvindo uma musica chamada “No promises” do conjunto Ice House. Tinha me arrebentado de trabalhar e já era tarde da noite. Estava de camisola com os cabelos molhados, e ouvia esta faixa nos fones de ouvido com os olhos fechados. O cantor estava no primeiro refrão “No promises...wherever you go...”, quando eu me vi em outro ambiente.
Primeiro notei o chão negro de granito, espelhando debaixo dos meus pés um pedaço do céu. Tinha a impressão de estar pisando nas nuvens. Depois vi um arco aberto na parede da sala redonda e escura, que mais parecia a de uma torre antiga.
Do lado de fora deste arco havia uma pequena plataforma em meia lua sem balcão, que se projetava da parede da torre em direção ao nada. Não havia chão, só o céu com nuvens de algodão em todas as direções, e muita luz. Eu não localizava o sol.
Ainda do lado de dentro da sala redonda, eu me aproximei do arco e parei a poucos passos daquela abertura celeste. Foi então que o vi.
Ele veio descendo verticalmente do lado de fora, e vi primeiro as pontinhas de suas imensas asas roçarem o chão. Tinha mais de dois metros de altura.
Era um anjo com aquele rosto quase feminino de tão bonito, mas com uns olhos verdes expressivamente masculinos e intensos. Tinha cabelo curto, cacheado, loiro, como nas figuras de calendário. E era enorrrrrmmmee.
Pairou por sobre a plataforma em meia lua, do lado de fora do arco e estendeu a mão esquerda por sob o arco me convidando a atravessá-lo.
Coloquei minha mão direita sobre a palma estendida dele e senti como se uma corrente elétrica subisse do centro da minha mão em direção ao coração e se distribuísse pelo meu corpo todo. Neste exato momento eu flutuei uns dez centímetros acima do chão. Ele segurou firme e me puxou em direção a ele como se eu estivesse dentro da água. Deslizei suavemente por sob o arco e me vi nos braços do anjo em pleno céu.
Ele me segurava como um par de dança e rodopiava nas nuvens ao som de uma música que já não era mais a que eu estava ouvindo nos fones, mas que se parecia com ela.
Ele dançou comigo durante algum tempo, olhando bem dentro dos meus olhos. E ai disse:
-Você sabe que sou um anjo não?
- Sei, claro...
-Você sabe que os anjos são vasos do Senhor?
-Como assim?
- Nós somos mensageiros do Senhor, levamos mensagens e sentimentos necessários aos seres humanos. Mas não temos sentimentos mundanos próprios, só os Divinos, e cada um têm sua especialidade como amor e compaixão. Somos vasos para contê-los.
- Entendi...(eu estava embasbacada ainda)
- Eu preciso da sua ajuda...
-Pode falar!
- Eu estou encarregado de enviar uma paixão adolescente mas não sei como é. Preciso sentir esta paixão no coração de uma mortal para reproduzir e enviar.
- E como eu posso ajudar?
-Tem que ser uma paixão ardente e pura como a rosa nova! Eu inspiro você?
Ele me apertava forte contra seu peito e olhava direto na minha alma com aquele par de olhos, como nunca de novo eu vi igual. Toda a eletricidade do começo agora percorria o meu corpo em ondas pulsantes. Eu não queria que acabasse mais, queria que ele continuasse a dançar comigo pela eternidade.
Eu pensei, e entendi que ele precisava que eu me apaixonasse por ele. Ele receberia o meu sentimento pra ficar repleto dele como um vaso. Procurei ver bem dentro de mim o que eu sentia pelo anjo e ver se conseguia me apaixonar, o que não seria difícil porque ele era lindíssimo e irradiava bondade, carinho, compreensão. Em outros tempos eu cairia de paixão por ele.
Mas apesar de todo esforço, só o que eu encontrei dentro de mim foi um deserto árido sem emoção alguma a não ser uma admiração profunda. Tentei fuçando no meu íntimo várias vezes e não achei nada. Disse a ele:
-Me perdoe, você é digno de uma paixão adolescente! Você é lindo e bom!
Mas estou seca por dentro, e embora eu esteja envolvida com outra pessoa, nem por ele eu consigo sentir paixão...então me desculpe...eu adoraria sentir isso por você mas não consigo mesmo.
O anjo não disse nada, me olhou com uma compreensão e simpatia sem precedentes, e irradiando carinho me depositou como uma flor sobre a pequena plataforma. Eu atravessei o arco em direção à sala redonda e me vi novamente no meu quarto com os fones de ouvido. A música estava bem no final. Nunca mais vi o anjo. Mas a sensação de eletricidade no meu corpo ainda durou vários dias.



Esta é versão estendida que estava no meu LP de vinil da musica que eu dancei com o anjo, clique no youtube para ouvir.
This is the extended version on my vinyl LP record, that is the soundtrack for this experience, click on youtube to listen:

O que você anda fazendo com o seu tempo?



O que você anda fazendo com o seu tempo?


Não a gente não tem tempo de sobra.
A gente nasce com os dias contados e morre a cada segundo.
Não, não é uma visão pessimista.
Postergar coisas pode significar não obtê-las nunca.
Passamos a maior parte da vida amealhando, juntando, acumulando seja lá o que for, pensando em usufruir um dia.
Porém, pode ser que a vida tome um rumo insólito e isso não aconteça.
Como no caso do sujeito que passou anos esperando uma oportunidade pra tirar férias do trabalho e levar os filhos pra Disney. Estressou, teve um derrame e está na cama pra sempre. Devia ter mudado de emprego logo.
Da executiva que investiu o melhor de sua saúde e juventude na carreira, e hoje não consegue ter filhos, vai ter que apelar pra doação de óvulos ou adotar.
Ou então no caso mais comum:
De alguém que passa a vida toda postergando o próprio descanso, prazer, satisfação pessoal, por causa de obrigações, trabalho, protocolos e etc...
Que engole sapo diariamente e trabalha no que não gosta.
Negligencia afeto e atenção aos seres amados, e emenda um dia idêntico após o outro. São criaturas que se deixam levar pelas circunstâncias sem nenhum respeito pelas próprias necessidades e sonhos.
O tempo é o bem mais precioso do ser humano, usá-lo em benefício próprio é um direito e um dever.
O trabalho e as obrigações não podem ser mais do que meios lícitos de alcançarmos nossos sonhos. Nunca um fim em si.
Os filhos crescem, nossos amigos e companheiros, pais e avós envelhecem e morrem antes que possamos conviver com eles como desejamos.
Convivência e vida social, vida familiar, toma tempo e carece de investimento, de atenção.
Não dá tempo de esperar que as coisas caiam do céu ou melhorem por milagre, a gente tem que ser feliz aqui e já.
Um dia eu recebi um prognostico fechado de doença e pensei:
-Nossa, mas morrer já? Eu sou muito jovem, quando eu chegar no céu vou reclamar com o responsável. Queria ver meu filho crescer, viajar com ele, ter sido mais feliz. Vida besta esta que estou deixando. Não, não vim aqui pra isso.
Cheguei à conclusão que Deus havia me dado tempo sim, o qual eu não soube aproveitar, e que chegando no céu ia reclamar, mas ouvir:
-Teve tempo de sobra, não fez porque não quis.
E eu ia ficar com cara de tacho.
Hoje estou alive and kicking.
Só trabalho o necessário para viver, o resto do meu tempo eu gasto com quem amo.
Não aceito imposições, protocolos e obrigações que não assumi.
Se algo me amola, descarto, isolo, neutralizo.
Foi-se o tempo em que tentava abraçar o mundo com as pernas e me sentia responsável por dar jeito em tudo.
Foi-se o tempo em que me obrigava a aturar gente chata e fazer média.
Adotei o direito ao dane-se.
Hoje falo verdades com muita classe, e sem classe alguma também, dependendo do meu humor. Mas não levo desaforo pra casa.
Só vou aonde eu quiser e em consideração a mim mesma.
Não preciso mais provar que sou educada, bem comportada e ajustada.
Aprendi a não me apegar a pessoas, lugares e coisas.
Só a amá-los, ou não.
Aprendi que não se sentir preso a alguém, a um lugar ou a uma coisa é verdadeiramente libertador do ponto de vista espiritual, e dá margem a uma riqueza enorme de aprendizados, mudanças e transformações.
Cumpro com as obrigações que escolhi e que considero justas,
mas meu livre arbítrio é exercitado a cada segundo.

Reacendendo minha chama





Reacendendo minha chama


Reacendo minha chama assoprando levemente o foguinho que paira entre as palmas das minhas mãos, porque com força demais posso apagá-lo de vez.
Quero que minha chama brilhe forte e espalhe seu calor, reaquecendo meu coração, para que ele tenha a idade que tem e nem um dia a mais.
Quero que o fluxo da minha vida sopre forte dentro de mim para que eu possa sentir o vigor da minha idade e nem um dia a mais.
Quero que meu caminho seja claro, limpo e bem traçado.
Quero o meu corpo todo feliz em hospedar minha alma.
Quero minha alma toda contente por habitar o meu corpo.
Quero que o sol nasça no meu coração e saia pelos meus olhos.
Quero inspirar luz e expirar rosas.
Quero abrir os braços e confortar o mundo.
Quero espalhar meu ser por ai como chuva prateada.
Quero viver livre e ser plena.

Três mulheres no espelho





Três mulheres no espelho



A primeira só descobre o espelho quando descobre que é mulher.
Ai fica procurando pequenos defeitos, decorando as diferenças entre ela e as outras mulheres.
Espreme cravos e espinhas, passa o primeiro batom e borra o primeiro rímel.
Faz mil testes com os penteados.
Enxerga o nariz e as orelhas maiores do que são.
Empina o peito pra ficar mais saliente e arrebita o bumbum.
Nem assim vê as curvas que estão se delineando.
Sofre por se achar menos bonita do que é, por querer parecer mais velha.
A segunda conhece bem o espelho. É amiga íntima dele.
É ele que lhe conta os segredos do seu corpo, que revela seus pontos fortes e fracos. Ela flerta com o espelho, que é o fiel conselheiro de muitos anos.
Explora seu potencial e confere no reflexo.
Procura por detalhes, estrias, celulite, pergunta a ele se é desejável.
Sempre se acha mais gorda do que está.
Faz caras e bocas, encolhe a barriga, ajeita o decote e alisa as pernas.
Nunca fica totalmente satisfeita.
Sofre por não ser feliz consigo mesma, por querer ser outra.
A terceira é viciada no espelho.
Ela o odeia com todas as suas forças porque não é mais um amigo.
Reflete uma imagem que escarnece dos seus esforços pra segurar o tempo.
Ela tem medo de olhar diretamente dentro dele, mas não resiste.
Todos os dias pratica o ritual de examinar-se com cuidado.
Faz um inventário meticuloso das rugas, manchas, e cabelos brancos.
Estica o queixo duplo e suspende as pálpebras. Fica parecendo uma caricatura chinesa, e nem assim reconhece as feições de antes.
Sofre por querer parecer mais nova, lamenta não ter valorizado o quanto foi bonita quando jovem.
Três mulheres que nunca foram bonitas o suficiente pra quem mais importa, elas mesmas.

A orquestra das cigarras




A orquestra das cigarras

Eu que moro no alto de um prédio da selva de pedra no Rio de Janeiro, vejo o mar, vejo a mata atlântica ao longe, mas não ouço o canto das cigarras.
Para mim que sou formiga o ano todo desde criança, isso faz uma enorme falta.
Na minha infância cercada de mato, era o anúncio da chegada do verão, e com ele, as férias, e o Natal. A melhor época do ano.
O coro enlouquecido dos machos chamando as fêmeas com sua zoada, as cascas abandonadas nas árvores, o esguicho de xixi destes bichos, tudo isso trazia a certeza de muita diversão.
Anunciava a vida como ela devia ser durante o ano todo no meu entender de criança: Sol, calor, água, festa, enfeites brilhantes, descanso e presentes.
Anunciava também a chegada das flores, dos sapos e dos vagalumes.
Sinto saudades do zumbido delas nas manhãs luminosas e quentes e nas tardes mornas quando o anoitecer vinha sempre atrasado.
Das noites abafadas com chuvas rápidas que deixavam a terra com cheiro de molhada.
Tem gente que se irrita com o barulho, mas para o meu coração é pura música.



"Slow Burn"

"Slow Burn"







É um filme antigo de 2000, com a Minnie Driver que eu assisti aos pedaços, cada dia um pouco.
Ela procura desde a infância uma caixa cheia de diamantes que seus ancestrais esconderam no deserto. Anda num jipe mulambento que é sua casa, e sua única salvação naquele ambiente árido.
Por ironia do destino quem acha a caixa de diamantes, é uma dupla de criminosos em fuga que acaba cruzando o caminho dela. Um deles tem os bolsos cheios de pedras que coleciona pela vida afora.
Não me recordo quem ou porque, faz uma troca, colocando a coleção de pedras na caixa, e os diamantes em outro canto.
No fim do filme, só sobra a moça e o cara da coleção de pedras. Ela acaba jogando as pedras dele fora e os diamantes somem sei lá por qual razão.
O que interessa é a conversa dos dois.
O cara reclama que ela jogou as pedras dele fora. E ela que ele perdeu os diamantes dela.
Mas ele diz:
-Cada pedra daquela eu catei num momento chave da minha vida. Cada uma tinha um
significado pra mim. Todas eram diferentes e especiais.
Ela inconformada:
-Mas você perdeu os diamantes que minha família procura há gerações, eu vou continuar atrás e vou achá-los de novo.
Ele implorando:
-Não faz isso, vem comigo, a ultima pedra que eu peguei foi quando você me beijou.
Vem embora comigo! E (mostrando uma pedrinha na mão) eu vou recomeçar a coleção agora! Você não precisa dos diamantes pra ser feliz, nunca precisou! Os diamantes vão matá-la.
Ela não cede, cada um vai para um lado. No caminho ela encontra com um velho que esta com os bolsos cheios de diamantes. Não me lembro mais que apito ele toca na história. Só sei que eles lutam e ela esgana o pobre coitado. Nesse ínterim, o jipe desce a duna de areia e vai embora rodando sozinho sem que ela perceba.
A moça morre seca e esturricada no deserto, andando a pé com as mãos cheias de diamantes.
É engraçado porque eu tive uma fase de colecionar pedras especiais quando criança. E também tive uma fase de andar olhando pro chão procurando elásticos de borracha. Só me interessava pelos encontrados, não valia se fossem comprados. Fiz uma enorme corda com eles e depois joguei fora porque melou.
As pedras guardei numa caixa até que quando minha mãe se mudou de casa, e jogou fora sem me avisar.
Eu tinha outra caixa também. De charuto Havana que meu avô me deu. Tinha fotos, cartas, bagulhos indecifráveis, recortes, coisas escritas, uma pulseira vermelha de acrílico quebrada.
Também sumiu. Na mudança obviamente.
Fiz um teste daqueles bobos de Internet e descobri que eu era um filme chamado “O fabuloso destino de Amelié Poulain”. Demorei anos pra assistir em DVD. Achei algumas semelhanças entre o meu comportamento e o dela. Mas somos muito diferentes no global. Só quando eu vi o comentário do diretor é que eu entendi. Somos parecidíssimos eu e ele. Portanto não sou parecida com a personagem, mas com o diretor. Vai ver que somos da mesma alma grupo. Ou, diretor bom, é aquele que faz filmes que refletem facetas do inconsciente coletivo. Vai saber, estes testes são estranhos.
Mas, resumo da ópera, todo mundo tem um caixa de pandora onde guarda diamantes, e tralhas queridas ou odiadas, inúteis ou insubstituíveis. O que importa é como a gente aproveita o conteúdo.