sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sono de mendiga


Sono de Mendiga

Tenho inveja. Às vezes passando pela calçada vejo um morador de rua dormindo feliz, impávido como uma pedra, totalmente alheio aos anseios e angústias da humanidade.
Esparramado ou encolhido sob os papelões e cobertores sujos dorme o sono dos que se devem algo não estão nem ai. Não há insônia no universo dos mendigos.
Antes eu não tinha insônia. Dormia como eles em qualquer lugar. Qualquer um mesmo!
Comendo sentada na frente da TV, no onibus, na sala de espera do aeroporto, no dentista.
Mas acabou. Por razões sinistras agora vez por outra tenho insônia.
Devo ter sido mendiga em outra vida, porque é só imaginar que estou num papelão debaixo de uma ponte que o sono vem.
Quando a insônia é mais brava, ai tenho que apelar pra televisão.
Coloco num canal de vendas e tento prestar muita atenção no codigo do produto e no numero de parcelas. Costuma ser infalível.
O problema é que como os mendigos, acabo dormindo fora da cama, toda torta, com som e luz no rosto a noite toda.
Às vezes uma alma familiar e caridosa tenta me reanimar e levar para a cama, ou mesmo tirar o único par de oculos que eu tenho.
Nunca dá certo. À tentativa de retirada de óculos eu reajo com reflexos e movimentos de um ninja enlouquecido e assusto a pobre alma.
E quando tentam me acordar e levar pra cama (já foi o tempo que me carregavam no colo) ai acordo com humor de mendigo. Só não taco pedra porque estou dentro casa.
Minha familia já se conformou.