sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Fashion Make Up




Fashion Make Up


Meu filho de nove anos pegou carona na TV quando eu estava assistindo a um desfile de modas comentado pela própria estilista.
O entrevistador, intrigado com a maquiagem gosmento-oleosa que cobria o rosto e os cabelos melecados das modelos, não se agüentou e quis saber de onde veio a inspiração para aquele look.
A estilista, encantada por poder explicar o surto criativo, diz que aquela maquiagem foi chamada de pós-sexo selvagem. Como se elas tivessem acabado de fazê-lo.
O moleque chocado soltou esta:
-Mãe, esta mulher obriga as moças a fazerem sexo selvagem antes de desfilar?
-Não, é só a intenção de mostrar isso, mas na verdade é só uma maquiagem sebosa.
-Mãe...
-Quê?
-Sexo selvagem é com animais selvagens?
-Não.
-É como?
-É mais parecido com um exercício físico onde você acaba suando muito, não envolve animais.
-E cansa?
-Cansa.
-Mas tem gente que faz sexo com animais?
-Infelizmente tem.
-Tigre, Leão?
-Não.
-Com quais então?
-Ah faz assim, se depois dos quatorze anos você não topar com isso na Internet eu prometo que explico.
-Mas mãe...
E eu já espremida na saia justésima.
-Hein? Que foi agora?
-Se tem gente que faz sexo com animais nasce um mutante disso?
A partir daí virei a conversa pras leis de cruzamento entre animais da mesma espécie, e aproveitei pra ensinar genética, e clarear mal entendidos.
Na cabeça dele, se isso fosse real, explicaria todos os seriados com mutantes que ele já viu. Ficou decepcionado.
Difícil é explicar sexo, perversão, televisão, genética, moda, mau gosto, e ficção científica pra uma criança sem traumatizar nem desinformar.
Quando eu tinha nove anos era mais fácil, era só a coisa da florzinha e do pólen e tal...

Terras do Zé





Terras do Zé


Abertura da Copa, um monte de times de países pequenos e pouco conhecidos.
Meu filho rolando de rir com os nomes dos jogadores estrangeiros, e se surpreendendo com os países de que nunca havia ouvido falar.
Meu marido resolveu fazer uma competição de quem já ouviu falar de “tal país” com o garoto:
-Já ouviu falar em Lischenstein?
-Não, mas conheço Trinidad e Tobago! Conhece a Costa do Marfim?
-Sim, e você conhece Tokelau?
Meu filho:
- Não mas eu conheço o Togo! E você conhece as Terras do Zé?
Eu e meu marido nos olhamos:
-Terras do Zé? Isso não existe!
-Existe sim, lembra mãe?
Eu não lembrava...
-Sabe aquele dia que a gente pegou o Atlas?
Continuei não lembrando.
Ele saiu todo resoluto, puxou o Atlas geográfico do alto da estante, e me deu:
-Acha aí aquela página que a gente estudou.
Eu achei, e mais... Pasma, achei as Terras do Zé.
Terra de Francisco José, perto da Groenlândia no Mar de Barents!
Pertence à Rússia hoje.
Fico me perguntando o que este austríaco navegador Karl Weyprecht estava fazendo lá.
Acho que ele queria muito descobrir alguma coisa e dar um nome qualquer.
Foi navegando e todo lugar que encontrava já tinha nome e dono.
Aí, quase chegando ao Pólo Norte ele achou estas ilhazinhas perdidas e falou:
-Pronto, eu te batizo “Terra de Francisco José”! Nome do Imperador Russo Franz-Josef I. E morreu feliz.
Parece que tentaram mudar para Fritjof-Nansen ou Terra Lomonosov, mas sem sucesso.
Claro que Terra do Zé é muito melhor! Podia ser Terra do Chico também...
Próxima vez eu vou apostar dinheiro com meu marido sem duvidar do meu moleque.

Crustáceos


Crustáceos

Nestas férias fomos a um chiquésimo e caríssimo rodízio de crustáceos.
Meu garoto adora ostras, mas nunca parou para pensar o que realmente são. Simplesmente as come desde pequeno.
Paramos defronte a uma montanha de gelo com ostras vivas e um garçom simpático que as abria na hora. Moleque pulando com o prato na mão:
-Mãe! Mãe eu quero!
Não gosto muito delas, mas pacientemente esperei o garçom abrir algumas, e arrumei no prato do garoto e no meu com pedrinhas de gelo, e fatias de limão.
Chegamos na mesa com lindas ostras abertas, e pessoal satisfeito comenta olhando com surpresa pro nosso prato:
-Puxa ainda estão vivas mesmo!
Eu achando que a maiorzinha meio que se movia ou coisa assim, resmunguei desconfiada:
-E é...
Pinguei limão nela e furei todinha com o garfo porque nem pude imaginar aquilo se mexendo enquanto escorria pela minha garganta.
Meu moleque com o garfo parado no ar:
-Mãe! Como é que é? Ela tá viva? Tem que matar?
Ele não sabia que ostras ficavam vivas fora da água.
-Por via das dúvidas você pode furar a ostra antes, beber o caldinho e depois engolir. Vai estar morta até lá.
Ele pega uma de concha grande e alaga de suco de limão, depois apunhala a pobre coitada cem milhões de vezes com o garfo.
Para e olha para a ostra toda detonada na sua mão, e depois olha cuidadosamente para as outras duas que ainda estão vivas no seu prato.
Fica pensativo por alguns segundos e dispara:
-Mãe!
Eu já prevendo alguma coisa errada:
-Quêee?
E o garoto atolado na culpa por comer um ser vivo:
-Será que as outras duas estão se comunicando?
Cá entre nós, eu não saberia responder, e não respondi.
Por telepatia talvez.
Mas caso estivessem devia ser algo assim:
-Ahhhhhhh! Socorro! Socorro!

UBUBAGAHORI





UBUBAGAHORI


Domingo de vento frio e chuva fina, tardezinha modorrenta com absolutamente nada na tv.
Parece Sampa, ou Londres, mas não...é Copacabana mesmo.
Marido fez chocolatinho quente, digo, fervendo pra comer com biscoito.
O povo aqui tem mania de comer comidinhas que dão conforto nestas circunstâncias.
Eu de costas tentando fazer sei lá o quê, começo a ouvir:
-UBUBAGAHORI !!
-UBUBAGAHORI !!
-UBUBAGAHORI !!
Meu filho com a mão em cima da caneca de chocolate tampando e destampando no ritmo do palavreado.
Eu ia ignorar mas não me aguentei:
-Que é isso ai? Tá benzendo o chocolate? Se não tirar a mão ele não esfria!!
-Não mãe , eu tô fazendo sinal de fumaça.
Não perguntei pra quem.
No dia seguinte ele, no mesmo lugar fez uma pilha de carne moída com batata fumegante e recomeçou:
-UBUBAGAHORI !!
-UBUBAGAHORI !!
-UBUBAGAHORI !!
Eu não disse nada, mas a empregada viu e fez o sinal da cruz.

Sangrar





Sangrar


Sangrar tem som, cheiro, cor e textura.
Veia é só silencio.
Artéria soa como corredeira.
O cheiro nunca mais sai do nariz, a textura é pegajosa.
Veia é drama, artéria é morte.
Fui e sou testemunha de vários atos, onde se sangra, se vive e se morre.

Adrenalina


Adrenalina

Mais um milhão de vezes eu postaria a letra desta música que fala de mim com tanta propriedade. Quem sabe o que é viver mais rápido que a luz? Você anda na frente, enxerga as múltiplas e caleidoscópicas possibilidades de todas as vidas que você poderia ter em qualquer universo.

Run through the speed of sound
Everything slows you down
And all color that surrounds you
Are bleeding to the walls
All the things you really need
Just wait to find the speed
Then you will achieve
Escape velocity

As imagens só ficam no inconsciente. É rápido demais pra registrar mesmo com os olhos bem abertos. Os sons vêm de longe como um eco porque a única coisa que eu posso ouvir de perto é minha própria respiração.

Alguém já sentiu o impulso do cosmos agindo como leme? Um leme insano com vontade própria que não te dá tempo de pensar e escolher. Você sabe como poderia ter sido, mas não tem opção porque é rápido demais. Não dá pra pensar, se pensar morre. Acontecimentos randomizados pelo caos caprichoso do cosmos.

You don’t even feel the pain

Uma dor maior substitui a anterior. Então você não sente. Sempre tem uma maior, pior, nova, diferente, melhor e mais terrível que a outra.

Too much is not enough, nobody said this stuff makes any sense.

Não, nunca é demais, tem sempre mais e mais. Eu me levanto e outra coisa vem e me derruba e bate bate bate. O cosmos se diverte, e eu caio. Ele espera paciente a minha consciência e bate de novo, e me derruba, e eu caio exausta.

Too much is not enough
Nobody gave it up
Im not the kind
To lay down and die

Não ninguém sai do jogo, nem eu, nem ele O Cosmos.

E os universos em luta pelo meu ser estirado e inerte, se engalfinham numa louca disparada espalhando detrito de galáxias inteiras, queimando sóis, sugando estrelas até a exaustão com o único propósito de possuir minha vida frágil.

Get closer to the thrill
Only time will kill
What's in your eyes
Is so alive

Eu cuspo sangue, deixo pedaços de mim pelo caminho mas me levanto.

Só pela adrenalina...

Adrenaline
keeps me in the game
Adrenaline
you don't even feel the pain
Wilder than your wildest dreams
When you're going to extremes
It takes adrenaline


Adrenaline
Screaming out your name
Adrenaline
you don't even feel the pain
Wilder than your wildest dreams
When you're going to extremes
It takes adrenaline

You don't even feel the pain
You don't even feel the pain
I'm going to extremes
There is nothing in between
You don't even feel the pain
You don't even feel the pain
You don't even feel the pain
You don't even feel the pain

(Adrenaline- Gavin Rossdale)



Absinto




Absinto


Sinto que minha seiva se esvai.
Absorvo sol e sugo o ar.
Solto o espírito e sigo em luz.
Mas volto carne e sofro dor.
Flutuo sobre o solo.
Sem raízes, só copa.
Então irradio fios,
linhas fluidas de pensamento.
E tento agarrar a vida.
Com o olhar de esperança
tento me alçar à eternidade.
Bato asas rasgadas, translúcidas,
e pesadas com o pó do caminho.
Fiapos de gaze,
caem do meu vestido, verde como a relva.
Ontem eu fui a fada, fui a seiva, e o espírito.
Hoje evanesço, sou um frasco quase vazio,
sou só o sonho,e o perfume, do ente que já fui.

O cara que não te quis


O cara que não te quis

Foi até assunto de um programa na tv recente. Não é aquele cara que te deu o fora não.
É aquele cara que você quis mas nunca conseguiu, porque simplesmente ele que não te quis.
Todo mundo tem um no currículo. O cara em si não importa, o que importa é como se comporta a mulher rejeitada.
Tem a que vai em frente e nem se ofende porque a fila anda e o mundo esta cheio de oportunidades. Não leva pro pessoal. Cada um com seu gosto e pra namorar tem que coincidir.
Tem a que gasta um tempo enorme tentando de todas as maneiras possíveis ainda que tenha levado um não na cara com todas as letras. Estas podem virar perseguidoras implacáveis e fazer coisas do tipo:
-ficar ligando no telefone dele só pra dizer oi ou deixar uma mensagem melosa.
-mandar flores ou cartões para o trabalho dele.
-rodar de carro em volta da casa ou prédio dele.
-aparecer nos lugares que ele frequenta para puxar assunto.
-fica amiga da mãe ou da irmã dele pra aparecer na casa do coitado.
Este tipo geralmente inofensivo sofre e choraminga, esperando ganhar na persistência.
Ela só quer entender a rejeição ou provar que consegue o cara, por isso insiste.
Até que por motivo de força maior ou sorte do perseguido, ela segue outro rumo ou outro cara.
Tem a psicopata. Esta faz tudo o que um homem faria e eu já descrevi isso em outro post.
É tão perigosa quanto um homem e capaz de tudo mesmo. Ela leva pro pessoal, pras suas feridas mais profundas.
Coloca mais esta rejeição no mesmo saco de tudo de horrível que já lhe aconteceu e pode resolver despejar no pobre coitado. A parte dele e o resto todo.
Isso pode acabar publicamente numa bebedeira de boteco acompanhada de um escândalo histórico, com direito a berros, cobranças, choro convulso, xingamento e talvez vômitos. Amigas consolando, arrastando pra fora.
Ou em coisa pior, vingança premeditada. Nesta não vou me estender, pois não vou dar asa a cobra.
E acreditem, ambos os cenários podem acontecer até muitos anos depois que o tal cara já até esqueceu o nome da dita cuja. Ás vezes até da pessoa dela. Conheço casos.
Mas arrematando o texto não posso deixar de dizer algo sobre o cara, ainda que pouco.
Ele pode ser um cara legal genuinamente tentando se livrar do encosto em forma de paquera da maneira mais digna e humana possivel.
Ou ele pode ser só um idiota que fica mantendo a esperança da desequilibrada pra lustrar o proprio ego. Tanto faz.
O importante nesse assunto é lembrar que a vida é curta demais pra cultivar dor de cotovelo.
A fila anda, e como anda.

Promoção

Promoção

Anuncio em letras garrafais na porta principal do Pronto Socorro onde eu trabalhava:


CAMPANHA DE CASTRAÇÃO
PREÇOS PROMOCIONAIS


(Um pouco mais embaixo em letras bem pequenas):

"Vamos colaborar para diminuir a população de animais sem lar."

Está pregada bem na porta por onde entram os acidentados.
Deve ter mais algum anuncio destes na sala de espera dos pacientes agendados também.
Fiquei imaginando o que pode passar pela cabeça de alguém que procura atendimento médico e num relance, só dá conta de ler as letras grandes.

Também já vi em alguns salões de beleza anúncio assim: CORTE MÃO E PÉ SÓ R$25,00.
Eu hein!

Falo com Deus

Falo com Deus

Eu falo com Deus. Até ai tudo bem porque qualquer um fala.
O estranho é que Ele me responde em alto e bom som.
Nem todas as vezes que eu falo, mas muito freqüentemente.
Nas outras ocasiões Deus me responde com fatos e ocorrências, através de recados dados por outras pessoas, ou mesmo não concedendo o que eu pedi.
Quando Deus fala alto, geralmente tem que berrar porque eu tenho tendência a ignorar, ainda que saiba que é Ele.
Quando eu não presto atenção geralmente me dou mal.
Enfim, entre nós, como em todo relacionamento as coisas não são perfeitas, mas bem ou mal nos comunicamos.
Outro dia apareceu outra voz.
Parecia com a de Deus.
Disse que o Universo é um experimento em andamento.
Que Deus está longe de ser a Perfeição, pois do contrário não haveria sofrimento, miséria, maldade e talvez nem mesmo a dualidade como a conhecemos.
Que tudo que perturba o ser humano faz parte das imperfeições do projeto, e que são “bugs” num programa complicadíssimo que Deus ainda está terminando.
Aliás disse que Deus é na verdade “D.E.U.S.“, ou seja, Desenvolvedores Especializados em Universos Simultâneos.
Porque ainda há uma equipe acima deles a D.E.U.M., também chamada de Desenvolvedores Especializados em Universos Multiplos, que é a sênior.
Já G.O.D. em inglês é a ONG internacional deles. Great Organization of Developers.
Enfim, todos os supostos nomes de Deus não passam de siglas de sindicatos, grupos, e outros representantes dessa equipe em níveis mais ou menos graduados.
O nosso planeta está passando todos os dias por mudanças catastróficas, muitas das quais não sabemos a causa e nem o desfecho.
Apelamos e oramos a Deus, depositamos Nele nossas esperanças.
No entanto, um vídeo muito ilustrativo explica como andam os projetos no Macrocosmo Divino.
É só lembrar da frase de Hermes Trimegistos “ Assim é em cima como o que o que é em baixo”, ou o Pai Nosso “ Assim na Terra como no Céu”!
Assistam o vídeo “Hug a Developer


E a voz? Ah é mesmo, a voz.
Acho que era D.E.U.S. querendo um abraço.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A Imperatriz




A Imperatriz

Meu coração adolescente, não percebe a pessoa madura que me torno a cada grão de areia que cai na ampulheta. Ele consegue imprimir nas células do meu corpo, um animo juvenil, como uma gripe.

Sou aquela que se sente uma garota, mas se sabe com bagagem de senhora.

Uma mulher de muitas lutas.

Luta pela minha própria vida, com ganho de causa pelo direito de existir neste mundo pra amar um filho, e pra ter o gosto de ser feliz.

Se fosse me descrever, seria algo de indefinível na idade, perfil sereno e seguro de quem sabe que veio viu e venceu.

Venceu a dor, o medo e a morte.

Cabelos longos, ondulados e soltos, pontilhados de flores de jasmim.

Porque meus cabelos são minhas linhas de pensamento: claras, contínuas e sem nós.

Olhos brilhantes e sorridentes como lagoas mornas.

Lábios suavemente fechados, respiração profunda.

Pescoço arqueado, a cabeça inclinada para a direita.

Sentada e vestida de branco, mãos no ventre grávido de promessas prestes a nascer.

Pernas esticadas e pés descalços na relva verde, florida de muguets.

Céu azul com nuvens brancas.

Como na carta do tarot.

Quase de manhã




Quase de manhã

Estava amanhecendo no Rio, e a gente se deitando. Céu escuro ainda, perguntei pra ele:

- Vou sair viajando em sonho, quer vir comigo?

- Pra onde?

- Ainda não sei. Resolvo depois que dormir, mas sei que vou a lugares lindos.

- Como faço?

- Dorme e me aguarda, te chamo e você me acompanha. Espera, vou dormir antes.

Ele esperou e adormeci no mesmo segundo. Acordei doze horas depois sem me lembrar de nada, achando que tinha acabado de deitar. Ele se lembrava de tudo, e eu tive certeza que tinha acontecido.

Ele e eu, comigo abraçada às suas costas, numa moto invisível, viajamos pelo espaço até um edifício virtual. Arquitetura inspirada num prédio real mas obra de autoria dele. Detalhes dele. Jardins, espelhos d’agua e cachoeiras!!! Fantástico!!!

Toque especial e comovente: o lago da cachoeira, de onde saiam pombos a cada toque de mão, na superfície gelada da água. Simplesmente lindo!!

Um cenário de sonho. Me emocionei.

Ele não sabe mas já me deu coisas maravilhosas. Só que esta saiu diretamente do pedaço mais doce, meigo e adorável dele. Do coração. Me apaixonei por um homem capaz de construir um sonho, e colocar sua garota lá dentro. E eu que ia ser sua estrela-guia nas terras de Morpheu, acabei sendo levada com carinho até as profundezas do melhor que existe nele.

Obrigada pelo presente, foi de todos o mais bonito.

Senhor do Bonfim




Senhor do Bonfim



Ou a gente acredita ou não acredita. O problema é que nunca acreditei muito e as tais fitinhas sempre demoraram tanto pra cair, que muitas vezes cheguei a esquecer qual era o pedido. Não me lembro se algum foi realizado pra dizer a verdade. E olha que já coloquei várias.
Esta semana meu marido amarrou duas fitas no meu punho esquerdo em dias diferentes. Uma delas ele comprou pessoalmente, e a outra eu ganhei. Enquanto ele dava os nózinhos fiz exatamente o mesmo pedido pras duas. Idêntico.
Ontem, três dias depois que coloquei a segunda (a que ele comprou), ela se desamarrou e caiu no chão. Teria algo a ver com fato de que os nós estavam um pouco frouxos e ele cortou as pontinhas da fita bem rentes? Ou seria o fatídico vaticínio de que o tal pedido não vai se realizar, e o Senhor do Bonfim estaria avisando?
Se considerarmos a segunda opção, como se explica o fato que a primeira fita com um pedido igual ao da que caiu, continua amarradíssima no meu punho firme e forte?
Não sou muito versada em mistérios de santos baianos. Mas se alguém ai puder elucidar o recado místico ficarei grata. É pra acreditar na coisa ou não? Afinal, tenho que saber se meu pedido vai ou não ser realizado, porque se não for, preciso tomar providências a respeito certo?!

Metamorfose



Metamorfose


Sou um céu nublado

Queria chover com relâmpagos e trovões

Ventar tornados

Lançar raios e chover mais ainda

Inundar minha vida e esvaziar minha alma

Pra depois

Fazer tempo bom

E virar arco-íris

Amigo de mulher




Amigo de mulher


Mulher tem amigo? Eu acho que tem. Mas são poucos e raros. Geralmente é uma paquera malsucedida de um ou ambos os lados que descamba pra amizade. Ou é aquele vizinho com quem você praticamente foi criada junto e que é como se fosse um irmão, um primo. Ou mais raramente um cara com quem você tem muita afinidade espiritual e nenhuma sexual. Os ex também dão ótimos amigos quando a relação acaba na boa, porque a questão da atração física já foi exaustivamente pesquisada e esgotada.
Uma mulher tem um amigo de verdade quando ela pode dizer tudo que pensa e sente pra ele a respeito de qualquer coisa. Ele é aquele que dá o ombro, a manga, a orelha no telefone pra escutar, quando ela precisa chorar.
É o cara que te tira da festa que ficou chata, segura tua cabeça quando for vomitar e acha café às quatro da manhã, só pra você entrar em casa andando em linha reta. Ele não te mede a menos que seja pra criticar uma roupa escandalosa, ou lançar um olhar de reprovação no comportamento.
Esta sempre disponível pra dar um conselho e ser o fiel da balança nas intenções dos seus namorados, sem nenhum ciúme. O amigo cuida sem interesse, ama sem atração física e permanece seu amigo através das dificuldades. Não há tempo nem distancia que esfrie a amizade. E ele não visa ganhar nada além da sua presença na vida dele, porque gosta de você pelo que você é, e sua companhia simplesmente enfeita as horas que ele passa com você.
O amigo daria um marido fantástico se esta combinação fosse viável, mas não é. Primeiro que não rola atração e segundo que nesta posição ele viria com o kit completo: ciúmes e cobranças. E ai deixaria de ser o amigo perfeito pra ser um marido normal.
Enfim, toda mulher deveria ter pelo menos um amigo sincero, mas sabendo que se um dia ele ultrapassar a barreira física e virar marido, ela poderá ficar sem nenhum.

Cheiros




Cheiros

Quando eu era adolescente tive um namorado com jeito de James Dean. Um motoqueiro de jaqueta de couro que usava "Trés Brut". Por incrível que pareça topei com este suposto rebelde no encontro de jovens da minha igreja.

Meu primeiro beijo de verdade foi com ele. Namoramos por pouco tempo, mas ele sempre usava aquele perfume. Depois que terminamos, eu mesma passei a usá-lo apesar de masculino, não só porque gostava, mas porque me lembrava dele.

Depois eu ganhei um "Fleurs de Rocaille" da Caron aos quinze anos. Presente da minha madrinha. Era um vidro grande que eu guardo vazio até hoje.

Toda vez que o abro sinto o cheirinho das festas, da vida alegre e cheia de amigos, dos bilhetinhos trocados na classe, das brincadeiras e da ausência total de problemas.

Tem o nhoque e o cafezinho da minha avó italiana. Ela é velhinha, mas ainda cozinha divinamente, e quando os cheiros invadem a casa, me voltam os domingos na casa dela com massa fresca, guaraná e picolé.

Chá de erva doce me lembra papinha de fubá. E cólicas.

Jaca fresca me lembra minha otite, e a sulfa em xarope, socorro!

E o formol? O Éter? O sangue? Lembro da garganta ardendo, pedaços escuros de alguém morto há anos grudando nas minhas luvas, ou a meleca na sala de emergência, a náusea, a vontade de largar a faculdade ali mesmo. Noites mal dormidas, o medo de errar, o cansaço, o monte de coisas pra ler que nunca acabava. Plantões, provas.

Depois foi comigo, o cheiro de anti-sépticos e a dor. Ah a dor! Ninguém nunca vai ter idéia. Tive o cheiro do hospital na alma e a morfina no soro vários dias, depois morfina em comprimido. Tesouras, pinças, agulhas e linhas na minha pobre pele. Boca seca, confusão, sono. Quero esquecer.

Minha mãe, e meu pai têm cada um seu cheiro. As gavetas deles emanam suavemente uma mistura de amaciante, e essência de pai e mãe.

As estações do ano têm cheiro. A primavera cheira a umidade e terra molhada. O verão tem cheiro de bronzeador e maresia. Mas o outono, não sei que cheiro tem, e o inverno da minha antiga cidade cheira a queimada de cana. A minha cidade atual cheira a maresia e fumaça de ônibus. Gosto de todos eles.

Meu armário tem meu cheiro também, mas eu nunca sinto. O nosso cheiro a gente não percebe. Amo o cheirinho do chulé do meu filho, e ele gostava de cheirar meu cabelo antes de dormir. Uma troca de cheiros é uma troca de amor.

Cada época da minha vida tem um cheiro-tema, nem todos bons, mas sempre insubstituíveis na capacidade de evocar um vídeo tape perfeito das minhas lembranças.

Chacina





Chacina

Estava eu por aí, sossegada, passeando com uma amiga, quando nos deparamos com uma cena ao mesmo tempo familiar e sinistra.

Troncos humanos com os membros decepados, sem as cabeças. Pernas e braços separados do corpo, com seus sapatos e pulseiras. Cabeças degoladas com colares e brincos. Tudo exposto aos olhos curiosos das pessoas, que se acotovelavam para conferir melhor os detalhes.

Ninguém parecia perceber o grotesco esquartejamento, e cobiçavam os acessórios e peças de vestuário que pendiam daqueles simulacros de gente. Crianças pequenas corriam ao redor inocentes e alheias.

Podem dizer que somos malucas, mas eu e minha amiga caíamos na risada a cada pedaço de corpo humano enfeitado e vestido que víamos no local.

O burburinho das conversas, a música, o cheiro da comida, nada combinava com aquela exposição crua dos frios e inertes manequins. Adornados como seres vivos, aquelas toscas figuras de resina ostentavam os objetos de desejo dos transeuntes reais, em poses arrogantes e forçadas.

Isso foi um dia de surto no Shopping Center. Esta minha amiga sempre entrou nos meus surtos, acho que mais por afinidade do que por solidariedade.

Tudo começou com um pé de homem enfiado numa sandália de couro numa vitrine de Surfe Shop. Só ia até o meio da canela, mas era tão parecido com o de verdade que estava horroroso. Eu fiquei olhando para aquilo por um minuto, e minha amiga logo percebeu que vinha alguma besteira. Só precisei dizer:

-Alguém esqueceu a perna ai!

E ela chorava de rir porque pensou o mesmo que eu.

Quem viu deve ter achado que fumamos certa erva, porque rimos de loja em loja até chegarmos ao cinema. Ainda dentro do cinema, os acessos de riso duraram bem mais de meia hora. Parece babaquice de adolescente, mas eu confesso que foi ótimo.

Notem bem que o cérebro humano abstrai a idéia repugnante da ausência violenta de partes do corpo, e completa o vazio apenas com a intuição daquilo que esta faltando. O objetivo é este mesmo. Despersonalizar o manequim pra que as todas as pessoas possam se identificar com o produto que ele vende. E comprar claro!

Eu desde aquele dia até hoje, nunca mais consegui abstrair nada. Só vejo o esquartejamento. E sorrio.

O Fantasma da Ópera





O Fantasma da Ópera

Negócio mais estranho sonhei em francês cantado. Ele era a cara da Morte com foicinha e capuz. Ou do "Pânico" aquele tal filme.

Na peça de teatro queria se casar comigo, mas aquilo não era encenação, era de verdade. Ele falava tudo cantando ópera e em francês, tentando me convencer a ir embora com ele. Pior que eu entendia. Lembro até dos detalhes do cenário, e do teatro.

No começo ele tentava me seduzir por bem, mas no final corria atrás de mim por todo canto do palco, como num desenho do Scooby-Doo. Eu driblava pra lá e pra cá tentando achar a saída sem sucesso. Não tinha um público assistindo. Não tinha mais ninguém.

E eu me perguntava onde estava meu marido, pra poder me tirar daquele sufoco. O doido do fantasma era magrelo mas tinha a tal da foice. Não dava pra encarar sozinha. Se meu marido desse o ar da graça, tomava o instrumento dele com um só tapa, mas cadê ele neste sonho?

Minha cara metade devia estar sonhando coisas mais interessantes em outra dimensão do sono.Talvez com Universos Paralelos, Eleições Presidenciais, ou aparelhos de TV 3D .

De repente, do nada me caiu a ficha:

-Você não é nenhuma porcaria de cantor fantasma! Você é A Morte!

E o feioso:

-Não, não, vem cá só um pouquinho...

Eu muito indignada:

-Você é besta? Vai te catar! Já te dei balão uma vez, acha que vou cair nessa?

Acordei com raiva, queria dar uma surra no magrelo! Sei lá, me viu loira e pensou que sou burra.

E ainda me diz:“Vem cá”!, vê se pode?

Loira suada


Loira suada

Uma amiga veio me mostrar que está com barriga. Ela é ate magra e realmente não come muito. Está com aqueles pneuzinhos indesejáveis ao redor da cintura que estragam a silhueta feminina.
Pra mim foi fácil desvendar o mistério. Ela toma um monte de cerveja todo final de semana, às vezes de dia de semana também, e não faz exercícios.
A reação dela quando eu dei minha opinião sobre a bebida, foi no mínimo curiosa. Ela disse:
-Ah mas eu gosto! E meu namorado acha ruim quando eu não bebo junto com ele.
E eu:
-Você gosta dos seus pneus também?
Ela:
-Não, imagina!
-E você acha que as garotas de biquíni nos cartazes que seguram a garrafa tomam cerveja também?
Ela já meio murcha:
-Err...acho que não.
-Não só elas não bebem cerveja, como elas malham à beça e muitas vezes nem mesmo comem pra aparecerem nos comerciais. Seu namorado costuma olhar os cartazes?
Ela meio sem graça:
-Não na minha frente, mas acho que olha sim.
-Então se ele reclamar que você não esta fazendo companhia na bebida, pergunte se ele prefere você parecida com a latinha ou com a moça que a segura no cartaz.

Solidão




Solidão


Não há solidão pior do que a solidão com companhia.
Solidão de compreensão, de compaixão, de empatia, de simpatia.
Solidão de quem se acompanha, mas não é acompanhado por outros.
Solidão de só contar consigo.
Solidão de não conseguir estar ouvindo a Voz de Deus.
Solidão de estar no escuro, no vazio, no silêncio de nossa própria alma.
Solidão do Ser, do Estar e do Ficar.
Solidão de não sentir ao seu lado o seu par.
Solidão de não mais se agüentar.
Solidão que pede pra sair voando.
E nunca mais voltar.

Mulheres no banheiro


Mulheres no banheiro


Sim este assunto já foi esmiuçado e dissecado, mas nunca morre. O que fazemos lá? Basicamente xixi. Mulher tem a bexiga menor, uretra mais curta e o útero fazendo peso em cima de tudo, de modo que não da pra agüentar acima dos 300 ml. Fazemos xixi toda hora mesmo. Mas claro que não é só isso.
O banheiro feminino é um lugar incrível sempre com muitos espelhos, toaletes separados e espaçosos, com ganchos nas paredes (paras as bolsas e sacolas) e portas. Quase sempre tem fila. E muita, mas muita conversa.
Mulher dificilmente vai ao banheiro público sozinha, só se não tiver outro jeito. Por vários motivos:
-Pra relaxar com uma amiga falando da vida alheia
-Pra elaborar um plano de ataque no meio de uma paquera
-Pra reclamar da vida em particular (só ela, a amiga e o resto do banheiro que às vezes participa ativamente da conversa até saírem de lá)
-Pra checar o visual: batom borrado, cabelo e roupa no geral
-Pra trocar o OB ou o absorvente, e ver se vazou
-Pra chorar, pra vomitar aquela vodca péssima, pra tirar a meia calça que desfiou...
E elas no espelho grande? É a coisa mais engraçada do mundo. Um concurso no melhor estilo “Espelho espelho meu!”. Saem dos toaletes, lavam as mãos e começa o ritual de abrirem as bolsas e sacarem pentes, pós, batons, perfumes, lencinhos. Batem os cotovelos umas nas outras.
Disputam no reflexo quem faz mais caras e bocas, quem atira o cabelo mais longe, e se torcem posando de frente , de lado e de costas pra conferir tudinho. Arrebitam o bumbum e empinam o peito. Puxam as calcinhas e ajeitam os seios dentro dos sutiãs meia-taça escondendo as alças. Alisam as pregas da roupa na cintura e encolhem a barriga.
Entram na frente umas das outras como se dissessem “o meu é mais bonito que o seu”. Ganha quem for mais vistosa, ou inconveniente. Porque a outra se enche e sai logo dali deixando o espelho para a dita perua.
E as brigas? Já vi ex e atual se enfrentando aos berros lá dentro por causa de um cara qualquer ai. De ambos os lados grupinhos de amigas dando apoio. E nós meras espectadoras tentando julgar a situação, quem é a vilã e quem seria a mocinha. A ex? a atual? Ou vice versa? Nada mais digno do que se pegarem no banheiro mesmo, longe do ego do fulano que ficaria todo inchado com a disputa. Depois podem sair dali e fingirem que mal se conhecem porque ninguém nunca vai saber.
Já vi porres homéricos com direito a todo tipo de baixaria curados na intimidade do banheiro, com a pinguça saindo dali arrumada pelas amigas, meio sóbria com a maior dignidade de que é capaz.
Que os homens saibam que quando uma mulher chama outra pra ir ao toalete é porque precisa equilibrar as idéias e emoções, e de quebra fazer xixi. Mas tenham certeza de que as duas vão sair dele poderosas.

GPS


GPS

Quem nunca saiu de carro com um cara que nem sempre sabe o caminho, não pergunta onde está e insiste em dar voltas e mais voltas pelo caminho errado que jogue a primeira pedra.
Somado a isso existem os distraídos de nascença, os sem direção, os sem noção, os catacegos, os que são tudo junto e mais alguma coisa.
Porque mulher não tem problema em assumir que errou, que ficou perdida e pergunta a direção.
Mas a maioria dos homens não.
Como detesto ficar perdida, costumo dar uma de navegadora. Leio as placas, presto atenção se entramos na via certa, se dobramos na esquina do endereço, e por ai vai.
Quando eu dirijo sozinha fica mais dificil num local desconhecido. Então comprei um GPS com mapa, video e voz pro meu carro.
É uma maravilha desde que você note que o aparelho só compreende as coisas em 2D e muitas vezes fala bobagem. Do tipo: "-Corra trás do próprio rabo subindo nos canteiros da avenida". Brincadeira, não é bem assim mas é quase isso.
Soube de um caso onde alugaram um carro com navegador na Europa, entraram na via errada, tomaram multa, foram pra delegacia para pagar e na saida entraram na contra mão, deram ré e bateram num carro da polícia. Tudo por culpa do navegador.
No mais, ajuda horrores.
Agora, a principal vantagem dele é que uma vez ligado, é ele que toma conta daquele especime masculino desorientado.
Quando o aparelho fala:
"-Entre à direita a 300 metros, entre à direita à 200metros, entre à direita à 100 metros, entre à direita a 50 metros....você passou a entrada! Reprogramando percurso!"
Não é você que fica de chata!

Se você me quer






Se você me quer


Se você me quer
Abra seu coração
Abra seu espírito
Deixe seu ser se afogar em universo
Se desmanchar no imponderável
Procure-me nas estrelas
Estou no movimento dos planetas
No vórtice das galáxias
Se você me quer
Deixe que seu pilar incandescente de paixão
Arda perene
E consuma seu corpo, sua mente, sua alma...
Que o calor abrasador do seu Amor
O envolva e o possua por completo
Procure-me na imensidão do deserto
Nas dunas onduladas
No fundo do oceano
Que sua entrega seja plena, eterna, profunda...
Permita que minha essência se misture perfeitamente com a sua
Que o pó da estrela de onde meu ser surgiu
Possa com pura energia luminosa
Criar efeitos de cores iridescentes
Inundar de perfume
E suavizar seu caminho
Que minhas mãos transmitam carinho
Que meus olhos emanem Amor
Que meus lábios traduzam paixão
Permita que aquele átomo que mora na ponta do meu coração
Faça fusão com o seu...
E que ambos pulsem juntos, rítmicos.
Forme a Unidade comigo, corpo, mente e espírito.
Inspire meu ar que eu expirarei o seu...
Seja minha vida que eu serei a sua
Seja meu que eu serei sua
Perca-se no meu universo
E te amarei como a mim mesma
Inteira, perene...

Silêncio





Silêncio


Hoje não quero falar.
Não quero pensar.
Porque sentir dói.
Dar adeus é importante, porque pode ser um nunca mais.
Quem garante a volta? Pode ser a última vez.
Prefiro ir a ficar, porque sempre quem vai me abandona.
E se me abandona sem um adeus é triste.
Há quem não se importe, que prefira o sono, mas...
eu amanheço junto com a cidade, num sol que não é o meu.
Sozinha. O resto da cidade ainda dorme e acorda aos poucos.
Mas eu não, porque a dor não deixa.
Faço questão absoluta de despedidas.
Longas, amorosas, cheias de saudade antecipada.
Amanhã será um olá, nem adeus, nem até logo,
mas hoje eu não quero falar.
Porque vou pensar só no meu dia,
dormir na minha noite,
e viver mais um dia seguinte.
Porque eu preciso sentir sem essa dor.
Manter meu foco no bem-estar disponível.
Talvez amanhã quando você voltar ao meu mundo, eu fale.
Mas hoje meu dia é silêncio, sem sorrisos.

O Zé




O Zé


Vou aproveitar a deixa pra falar do Zé.
O Zé entrou na minha vida muito cedo, pois ele sumia com os meus brinquedos favoritos, tampas de mamadeira, chupeta, e um pé de cada par de meia.
Não é só comigo a implicância do Zé. Quando eu era criança, O Zé roubava a lixa de unhas da minha mãe, uns pares de óculos do meu avô, o apontador do meu irmão e empurrava a culpa para a empregada doméstica, porque ela nunca sabia dizer onde estavam as coisas.
O Zé tem um prazer sádico em esconder as coisas que a gente precisa, e só devolver depois que a gente não precisa mais, num lugar bem à vista em que todo mundo procurou.
O Zé chega a ser mau, pinga xixi no assento da privada, come o ultimo pedaço de bolo, o ultimo gole de coca cola, deixa as luzes acesas e portas destrancadas de propósito.
Quando eu casei e me mudei, ele foi junto. O Zé larga torneira aberta, acaba com a última folha do talão de cheques, coloca pra lavar junto com a roupa suja: as notas de dinheiro, moedas, lenços de papel e documentos.
Depois que meu filho nasceu o Zé começou a mexer nos aparelhos eletrônicos da casa, rabiscar paredes e colar chiclete mastigado no sofá da sala.
Sempre que alguma coisa errada acontece, a gente pergunta em casa: “Quem foi?”. Claro que não tendo sido ninguém, só pode ter sido o Zé. Óbvio.
Pum no elevador? O Zé, sempre. De vez em quando ele sai para dar umas voltas na rua.
Mas ele nunca abandonou a casa de minha mãe. Aliás, é lá que o Zé faz as piores coisas.
O Zé é tão presente que na casa dela sempre erramos o numero de pratos, copos e talheres. Colocamos um lugar a mais na mesa, o do Zé claro.
O Zé é uma entidade, um Ser, uma força da natureza, mas em algumas culturas é chamado de Elfo Doméstico.
De vez em quando o Zé passa das medidas. Outro dia ele sumiu com um documento importantíssimo o qual separei e coloquei num lugar bem fácil de achar e lembrar.
Foi só precisar do tal documento, pronto, já tinha sumido. O Zé havia pego.
Fiquei furiosa, desandei a falar alto e ameacei o Zé com um exorcismo permanente.
Foram menos de dez segundos. O documento apareceu exatamente onde eu havia deixado.
Mentira? Juro que não é. Às vezes ele não tira a coisa do lugar, ele só faz a gente não enxergar que ela está lá.
Acho que ele é meio carente, invejoso, guloso, porcalhão, curioso. Mas é da família, fazer
o quê?