sábado, 10 de dezembro de 2011

Entrando em parafuso

Entrando em parafuso




Um tempo atrás reclamei que minha vida parecia rolar sobre uma montanha russa.
Eu não tinha um dia igual ao outro e os altos estonteantes eram seguidos de descidas abissais em alta velocidade. Minha grande dúvida era se Deus estava me enviando algum tipo de lição ou punição.
E eu até que gosto de adrenalina. Mas as coisas estavam fora de controle, estava cansada.
Tão cansada que precisei parar completamente, e esperar algum tempo enquanto o carrinho da montanha russa desacelerava para poder descer dele.
Passei um tempo no solo, parada, sentada, pensando que por raios Deus não me mandava uma vida plana, sem curvas, altos, baixos e encruzilhadas perigosas. 
Até que fiquei entediada e resolvi andar aos poucos, devagar. Foi aí que tive uma epifania! 
Andando lentamente pude perceber que não estava em solo. 
Era eu quem escolhia o caminho e o veículo.
Estava dirigindo minha vida dentro de um avião a jato em dia de manobra da esquadrilha da fumaça, sem a fumaça. Nunca houve montanha russa. O que me parecia chão era o céu, e o céu parecia a terra.
Eu piloto fazendo "Loopings", "Quedas em parafuso", "Splits", Espirais", "Breaks". E caso encontre alguém voando, faço questão de acompanhar a pessoa em formação por um trecho antes de seguir meu caminho.
Finalmente entendi porque alguns acham que sou "meio doida", e preferem manter uma certa distância. 
Deve ser esquisito andar por ai com alguém fazendo acrobacias sobre a sua cabeça.
No entanto, fiquei muito feliz e grata por constatar que minha familia mais próxima não só voa junto comigo mas também brinca fazendo algumas manobras.
Ponderei se não seria mais seguro arranjar uma bicicleta e seguir pela praia. Mas eu não suportaria o tédio.
Já tenho os meus dias em que piloto um dirigível, e está de bom tamanho.
Em breve decolo para mais estrepolias em alta velocidade. É o frio na barriga que me faz sentir viva.
Pode ser que um dia eu caia sem chance de me ejetar. Mas não tem problema.
Prefiro morrer me sentindo viva do que viver me sentindo morta.


domingo, 21 de agosto de 2011

Balões de gás

Balões de gás



Mais precisamente de gás Hélio. Com os de oxigênio não é o mesmo.
A mágica de desafiar a gravidade sempre foi mais fascinante do que as cores e formas.
Acho que eu tinha uns dois ou três anos de idade e naquela época minha cidade era bem pequena.
O único lugar onde podia ganhar um era o Bosque Municipal, o Zoológico da cidade.
Não gostava muito de lá. Era quente, úmido, mal cheiroso e os bichos presos nas jaulas me entristeciam.
Mas tinha balões de gás e nuvens de algodão doce. Então eu ia, de bom grado.
Se estivesse com sorte ganhava os dois.
O balão de Hélio não só voa sozinho como voa pra longe de você se não segurar firme.
Minha admiração pelo mais leve que o ar nunca teve limites.
Um objeto que além de desafiar a mais implacável as leis, ainda tem um desejo incontrolável de liberdade não pode ser menos do que fascinante.
Que levante a mão quem nunca desejou voar num balão e comer nuvens.
Os balões de festa, aqueles que caem no chão, cheios do mesmo ar que mora nos nossos pulmões, para mim são somente decorativos.
Para outros mais agressivos, estão ali para serem pisados e estourados. Disso eu não gosto.
Apesar do Oxigênio no corpo, minha alma tem Hélio.
A gravidade não me submete mais do que o necessário, e sou eu que escolho quem segura o meu fio.
À menor desatenção saio voando e procuro liberdade. Fujo para um banquete de nuvens.
E lá de cima, torço para que os meus irmãos que estão presos no chão um dia respirem Hélio.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Bicho do mato



Bicho do mato


Quando eu tinha uns seis anos mudei de um apartamento no centro da cidade para uma casa grande num bairro fastado com muito verde ao redor.
Poder andar para todo lado sozinha era só aventura, virei um bicho do mato.
Saia de casa descalça logo depois do almoço e voltava à noitinha quando os insetos começavam a picar.
Aprendi a fazer quase tudo que uma criança do campo faz. Subir em àrvore, nadar no lago, campear mato fechado, atirar pedras, correr das corujas e muito mais.
O que não quer dizer que eu não assistisse à tv. Assistia sim, e como.
Um dia vi num filme, um índio detectar a chegada de um trem colocando a orelha nos trilhos, só pela vibração, muito antes do trem aparecer.
Resolvi testar. Por incrível que pareça minha rua era bastante movimentada.
Carros passavam a todo momento em velocidade alta descendo uma ladeira curva na direção da minha casa. A curva era de tal modo que os motoristas não tinham visão alguma da minha rua antes de entrar nela.
Passei a me deitar na frente de casa com o ouvido no chão de costas para a curva. Prestava muita atenção às vibrações e antes que o motorista me visse deitada no meio da rua, eu já sabia que ele estava vindo. Esperava a aproximação do carro e saia correndo na ultima hora.
Sempre era tarde demais quando me viam.
Uns buzinavam, outros xingavam, teve até alguém que parou o carro e ameaçou chamar meus pais. E depois de algum tempo, os habituais passaram a entrar bem devagar na minha rua, o que tirava toda a emoção.
Um dia, estando muito concentrada no ruído, não vi minha mãe se aproximar quieta atrás de uma moita. Ela não entendeu o que eu estava fazendo e decidiu espiar.
Demorou algum tempo para aparecer um carro, mas quando ela finalmente se deu conta que eu estava bancando o dublê de índio, pulou em mim como uma onça.
Eu que estava correndo do carro, continuei correndo como louca até o final da rua e subi numa àrvore bem alta onde eu fiquei até escurecer. Por precaução.
Quando eu voltei pra casa, tinham desistido de me bater. Não me recordo o que disseram, mas achei melhor não fazer mais.
Mas continuei a escalar àrvores,calhas e a andar nas cumeeiras dos telhados dos prédios de três andares da vizinhança, até perder a graça.
Hoje que sou mãe, sei que devo desculpas ao meu anjo da guarda. Eu não fiz por mal, mas ele certamente teve que fazer hora extra e chamar reforços mais de uma vez.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Casando com Ziggy Stardust

Casando com Ziggy Stardust




Toda garota tem um amor platônico e, pelo menos uma vez na vida pensa secretamente em se casar com uma estrela do rock.
Minha paixão avassaladora era Ziggy Stardust, um alienígena Rockstar.
Lembro-me de andar em Londres com oito anos, à procura dos grandes cartazes de Bowie.
Ele era pálido, magro com estranhos olhos verdes e os cabelos vermelhos mais brilhantes que eu já vi. E ainda por cima alienígena!
Não poderia pedir mais. Ele era perfeito para mim!
Sua voz profunda vinda das estrelas diretamente pro meu coração e era simplesmente impressionante.
Era tal o meu fascínio, que me fazia parar na frente de lojas de discos e olhar os posteres hipnotizada. Minha mãe e meu pai tinham de me arrastar à força nos passeios em Piccadilly Circus, Oxford Street, ou praticamente qualquer lugar onde houvesse um cartaz ou uma loja tocando "Space Oddity" ou "Life on Mars".
Eu não tenho como descrever o que se sente quando se acredita ter encontrado o amor da sua vida, sua alma gêmea aos oito anos apenas, mas percebe que ele é, obviamente, completamente fora do alcance. Mesmo que ele fosse meu vizinho, eu acho que o meu pai não aprovaria.
Naquela época ele era um cara 16 anos mais velho, casado, supostamente bissexual, e cantor de rock que vestia roupas esquisitas. Mas, não por isso,a minha tristeza vinha da certeza de que meus pais nunca aceitariam um alienígena cantante como genro. Muito moderno para eles.
E, depois de dois anos vivendo no exterior, voltei para minha casa no terceiro mundo. Eu o perdi de vista.
Cinco anos mais tarde ele retornou ao cenário internacional e eu fiquei feliz por poder ouvi-lo cantar de novo.
Mas aí ele já era Mr.Bowie pra mim.
Fui no "The Glass Spider Tour" para vê-lo ao vivo.
Foi incrível! Eu tenho certeza que vou ser sempre fã e acompanho sua carreira "até que a morte nos separe."
Mas a minha criança interior ainda é apaixonada pelo Alien Rockstar.
Do meu coração de menina para você com amor Mr.Stardust!