quinta-feira, 21 de julho de 2011

Bicho do mato



Bicho do mato


Quando eu tinha uns seis anos mudei de um apartamento no centro da cidade para uma casa grande num bairro fastado com muito verde ao redor.
Poder andar para todo lado sozinha era só aventura, virei um bicho do mato.
Saia de casa descalça logo depois do almoço e voltava à noitinha quando os insetos começavam a picar.
Aprendi a fazer quase tudo que uma criança do campo faz. Subir em àrvore, nadar no lago, campear mato fechado, atirar pedras, correr das corujas e muito mais.
O que não quer dizer que eu não assistisse à tv. Assistia sim, e como.
Um dia vi num filme, um índio detectar a chegada de um trem colocando a orelha nos trilhos, só pela vibração, muito antes do trem aparecer.
Resolvi testar. Por incrível que pareça minha rua era bastante movimentada.
Carros passavam a todo momento em velocidade alta descendo uma ladeira curva na direção da minha casa. A curva era de tal modo que os motoristas não tinham visão alguma da minha rua antes de entrar nela.
Passei a me deitar na frente de casa com o ouvido no chão de costas para a curva. Prestava muita atenção às vibrações e antes que o motorista me visse deitada no meio da rua, eu já sabia que ele estava vindo. Esperava a aproximação do carro e saia correndo na ultima hora.
Sempre era tarde demais quando me viam.
Uns buzinavam, outros xingavam, teve até alguém que parou o carro e ameaçou chamar meus pais. E depois de algum tempo, os habituais passaram a entrar bem devagar na minha rua, o que tirava toda a emoção.
Um dia, estando muito concentrada no ruído, não vi minha mãe se aproximar quieta atrás de uma moita. Ela não entendeu o que eu estava fazendo e decidiu espiar.
Demorou algum tempo para aparecer um carro, mas quando ela finalmente se deu conta que eu estava bancando o dublê de índio, pulou em mim como uma onça.
Eu que estava correndo do carro, continuei correndo como louca até o final da rua e subi numa àrvore bem alta onde eu fiquei até escurecer. Por precaução.
Quando eu voltei pra casa, tinham desistido de me bater. Não me recordo o que disseram, mas achei melhor não fazer mais.
Mas continuei a escalar àrvores,calhas e a andar nas cumeeiras dos telhados dos prédios de três andares da vizinhança, até perder a graça.
Hoje que sou mãe, sei que devo desculpas ao meu anjo da guarda. Eu não fiz por mal, mas ele certamente teve que fazer hora extra e chamar reforços mais de uma vez.