segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Pinhão

O Pinhão



Eu não devia ter nem três anos. Meu irmão não era nascido.
Eu fui ao Mercado Central com minha mãe e minha avó comprar azeitonas, amendoins e tremossos para uma festa que aconteceria em casa.
A banquinha era cercada por sacas e mais sacas de grãos de todos os tipos, caroços, sementes, castanhas e jarras de conservas.
Conforme minha mãe apontava, o dono da banca servia amostrinhas de amendoins e outras coisas de comer para que pudéssemos experimentar.
Finalizando a compra ele ofereceu pinhões. Disse que estavam macios, fresquinhos, muito bons.
Nunca tinha comido aquilo, mas vi que era cascudo e não dava para experimentar ali.
Minha mãe perguntou o preço, mas achou muito caro e desistiu.
Eu pedi insistentemente para que ela comprasse porque queria experimentar a coisa cascuda.
Ela foi taxativa em dizer que não e não. Fechou a conta, pagou e pegaram os pacotes.
Eu peguei um único pinhão do saco, decidida a pedir que minha avó abrisse para mim em casa. O dono da banca viu, e eu não imaginei que ele pudesse se zangar, já que tinha nos oferecido amostrinhas de tudo ali.
Sai atrás das duas com o pinhão na mão.
Na porta do mercado, minha mãe quis saber o que eu tinha na mão. Eu mostrei e ela ficou furiosa. Mandou que eu voltasse imediatamente na banca e devolvesse ao homem pois fazer aquilo era muito feio.
Fiquei pasma, não queria devolver não. Eu queria comer. Feio porquê?
Na época, minha mãe era estudante de psicologia do segundo ano. Sei lá qual teoria comportamentalista ela andava lendo, mas decidiu aplicar em mim.
Ela foi muito dura comigo e ordenou rispidamente que eu voltase e fizesse o que ela disse.
Comecei a chorar porque queria muito comer o pinhão, mas voltei.
Cheguei na banca chorando horrores e mal consegui entregar o pinhão ao homem, que ficou de boca aberta olhando, espantado.
Para meu desespero ele me devolveu o pinhão e disse: -Toma, estou te dando.
Eu sacudi a cabeça negativamente e coloquei de volta no saco, chorando mais alto ainda.
Ele foi até o saco, pegou uma mão cheia deles e colocou no bolsinho da minha calça comprida.
Minha mãe que estava bem perto vendo tudo, veio correndo dizendo:- Não, não e não!
Tirou tudo do meu bolso, colocou de volta no saco, olhou para o homem e disse:- Não obrigada!
Eu que já estava triste por não poder comer a coisa, fiquei pior ainda com aquela cena. Achei que tinha feito alguma coisa imperdoável, e duas vezes seguidas, porque fui levando bronca na saída enquanto minha mãe me puxava pelo braço.
Na volta para casa ela me explicou que tirar as coisas sem pagar é roubo, e é muito feio. Eu chorava tanto que não consegui argumentar. Eu queria gritar: -Mãe, eu só queria comer. Ele deu um monte de coisas pra gente sem pagar, e depois disse que estava me dando isso também!
Não entendi nada mas fiquei quieta, deixei as palavras mudas na minha cabecinha.
Foi horrível, e a cena ficou gravada nas minhas recordações até hoje. Só ousei comprar alguma coisa sozinha depois dos cinco anos. Tinha receio dos vendedores, não sabia como me comportar.
Minha mãe talvez nem se recorde do episódio tantas foram as oportunidades que ela teve de educar a mim e ao meu irmão com sermões intermináveis.
Hoje sou mãe de um jovem adulto, mas se ele tivesse feito o mesmo quando pequeno, eu teria tranquilamente dito:
-Filho, vamos voltar e pagar este pinhão ao dono. Tudo que a gente compra, tem que usar dinheiro para pagar. E mesmo que ele dê amostras, não quer dizer que podemos pegar sem pedir antes.
Nunca precisei chamar a atenção do meu filho. Expliquei compras muito cedo, como parte da experiência no supermercado.
Mas certamente aprendi que o que é dos outros a gente sequer pode tocar sem pedir, quanto mais pegar e levar embora. E vale pra tudo: coisas, crenças, pessoas, lembranças, emoções, afetos...
Se o mundo seguisse esta regra haveriam menos guerras.

Garapa do Seu João

Garapa do Seu João

O carrinho de caldo de cana vulgo garapa, era na esquina do apartamento onde eu morava, bem pertinho do outro lado da rua. Às vezes ele também vendia pastel quentinho. Mas quando eu estava em casa ninguém descia pra comprar.
Todas as manhãs eu ia para a escolinha, minha mãe ia pra faculdade, e meu pai para o trabalho.
De tarde, eu e meu irmão ficávamos na casa da minha avó. Era a umas quatro quadras do carrinho de garapa do seu João, bem em frente à agência central dos correios.
Quando meu avô ia até lá checar a caixa postal dele, costumava me levar e comprar pastel com garapa.
Eu aprendi o caminho, e passei a ir sozinha. Sempre que ganhava umas moedinhas, saia correndo feito louca para comprar. Comia , bebia rapidinho e voltava correndo mais rápido ainda para a casa da minha avó. Porque se ela percebesse que eu tinha desaparecido, a coisa podia ficar feia.
O problema é que eu devia ter uns cinco ou seis anos, e o pastel com garapa era tamanho para adulto.
Quando eu chegava no portão, tinha sacudido tanto na corrida, que vomitava tudo. Uma tristeza. Se eu fosse um gato acho que teria lambido de volta. Entrava na casa da minha vó com a barriga tão vazia como tinha saído.
Nunca ninguém percebeu que eu fazia isso. Não sei bem porque eu insistia em comer, correr e vomitar em seguida. Sempre fazia de novo. Mas ainda adoro pastel com garapa. E se não sair correndo, não vomito.