terça-feira, 18 de junho de 2013

Minha vida de cachorro

Minha vida de cachorro

Sim, é o titulo de um filme antigo, muito bom por sinal. Eu recomendo.
Vou contar como era minha infância antes do "Bullying" virar moda.
Sou diferente, meu cérebro é diferente. Como eu sei? Exames, médicos, psicologos, tudo.
Entrei na escola um ano antes da idade prevista, portanto além de diferente e novinha, era neurologicamente imatura também. Então tinha que correr atrás do meu desenvolvimento cognitivo por iniciativa própria.
Isso não tinha como dar certo, mas meus pais insistiam. Afinal, eu aprendia muito rapido, falava tudo.
Na creche, aos 2anos e meio, apanhei duas vezes de um moleque assim que cheguei. Na terceira bati nele.
Ganhei como castigo limpar o nariz de um garotinho que tinha sinusite cronica, durante uma semana inteira.
Na verdade fiquei na duvida se aquilo era castigo porque o garoto era deficiente, e se eu não fizesse ninguém fazia. Então passei a fazer sem ninguém mandar quando tinha meleca demais nele, por higiene.

No Jardim de Infancia não me concentrava nem um pouco nos exercicios preparatorios para aprender a escrever. Só queria brincar. Eu tinha três anos. Era uma escola de freiras só para garotas ricas e mimadas.
Um dia fui empurrada num jardim de cactos e me espetei toda, no outro me derrubaram durante  a aula de balé. Até aí estava quieta. Durante a aula regular alguém mexeu comigo e eu respondi. Fui repreendida pela professora na frente da classe toda, só eu. Peguei minha carteira de madeira e quebrei em pedaços no chão.

Lógico que fui transferida para outro colégio de freiras igualzinho. Com a recomendação de que era "meio problemática". Muito bem, continuava a caçulinha, ninguém me batia, mas era sumariamente ignorada com olhares de désdem. Ouvi que não ia passar de ano porque era muito novinha. Com o meu avô peguei um bloco de papel vegetal, e me pus a copiar letras corridas e letras de forma. Depois de um mês, coloquei o bloco escrito na mesa da professora. Ela não acreditou. Escrevi na frente dela sem a cola por baixo. Passei de ano.

No Pré primario sofri um dos espisódios de bullying mais icônicos da minha vida. Quando tinha aniversario, a dona da festa (fazíamos no recreio) ganhava desenhos das colegas de presente. Na véspera da minha festinha, um grupinho de garotas veio até mim  e avisou que se eu aceitasse o desenho da Claudinha (troquei os nomes) eu seria excluida do grupo de "descoladas" e das atividades sociais coletivas.
A Claudinha era uma garota com paralisia cerebral grave. Quando perguntei o porquê, as "descoladas" disseram que a menina tinha as mãos "nojentas" ( ela tinha mãozinhas hipotonicas e cutucava o nariz).
Eu achei aquilo maldade e falei exatamente o que pensava. Fui olhada com profundo desprezo e nojo.
A professora dentro da classe brincava de três macaquinhos, afinal perder alunas ricas nunca foi opção.
Em casa, arrasada, contei pra minha mãe. Ela me disse:- Sim filha, é maldade e discriminação! Mas só você pode decidir o que fazer. Se quer enfrentar suas colegas ou não. Tudo tem um preço. Às vezes a gente tem que ficar num meio termo, não dizer exatamente tudo o que pensa, e fazer o que é possível fazer.
E eu do alto dos meus cinco anos disse: - Mas mãe isso é hipocrisia! ( Sim eu já sabia conceituar hi-po-cri-sia e aplicar no contexto correto).
No dia seguinte todo mundo me entregou um desenho, inclusive a Claudinha e eu aceitei. As "descoladas" pararam de falar comigo por dois anos. Fiquei invisível pra elas na escola, e isso é uma modalidade de bullying passivo-agressivo.

Até que fui morar no exterior, e conheci o bullying físico pra valer.
Em Londres, naquela época começava o movimento que deu origem ao punk. Apanhei da mesma gangue de garotos por duas vezes na porta do meu apartamento só por que estava ali, sem motivo. Nem dava pra revidar porque eram muitos. Eles batiam no bairro todo. Eu tinha só oito anos. Mas quando era um garoto só, eu revidava na base da mochilada e saia correndo.
Na escola inglesa eu era discriminada porque vinha do terceiro mundo, e junto com as crianças mulçumanas, indianas e africanas formávamos o grupo dos párias com quem ninguém falava. Invisível de novo.

Quando voltei para o Brasil, as mesmas "descoladas" vieram com paparicação  porque morar no exterior era chique. Pedi para minha mãe me colocar numa escola pública no ano seguinte, longe do bando de hipócritas, cínicas e interesseiras.
Foi um período tranquilo no ensino público.
Tive uma paz relativa e passei a lidar com as provocações de modo blasé, desqualificando verbalmente qualquer impertinência. Neutralizando adversários.

Quando entrei na faculdade, o bullying começou no trote, e continuou por vários anos sendo perpetrado em todos os níveis dos mais toscos aos mais sutis, pelos veteranos e por colegas de classe de quem eu discordasse. Aqui não entro em detalhes porque esses Drs. hoje são "respeitáveis membros da sociedade". Os estudantes de Medicina são mais ou tão agressivos que os recrutas do exército quando se trata de oprimir o semelhante. É o trote que mais matou alunos até hoje.

Mas tenho que deixar registrado que depois de seis anos de amolação diária, o pior bully do pedaço, eu peguei pelo pescoço dentro do elevador a uma semana da formatura. Estavamos sós e ele soltou uma obscenidade nojenta. O choque de ser atacado por uma magrela foi maior que a capacidade dele reagir.
Ele se soltou e desceu pela escada. Se ele tivesse me machucado eu teria ganho também. E como!
Ainda não sei se ele foi embora para outro estado porque quis, ou por livre e espontanea pressão do corpo docente da universidade. Acho que nunca saberei, mas foi uma bênção este cara fazer residência em outro canto.

Aprendi que temos que criar recursos pra enfrentar bullying de qualquer tipo. Eu nunca tirei carteirinha de vítima. Se dá pra transformar o desafeto em um individuo neutro ou amigo, ótimo! Se não há meio, estabelecer limites e impor respeito é fundamental. Mas isso é um texto a parte, sou a favor da não-violência.

Adendo: Alguém que leu este texto perguntou como me lembro de coisas tão antigas numa idade que quase ninguém lembra. Bom, no começo eu expliquei sobre meu cérebro ser diferente. Faz parte.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Assombrações

Assombrações

Na minha casa tinha, sempre teve e ainda tem. Não estou falando do que já apresentei antes.
Eu morei num edificio vitoriano no meio de Londres e não era tão assombrado como foi minha casa aqui.
Quando eu assisto aqueles programas de caçadores de fantasmas na TV fico surpresa com o que assusta as pessoas. Que mixaria! Que povo frouxo! Que apavoramento injustificado!
Luzes que acendem e apagam, lampadas que estouram, portas que abrem e fecham sozinhas, armarios com corrente de ar gelado, invasões de insetos, cama que sacode, cobertor que sai sozinho, sombras escuras, luzes fugazes e orbes estranhos. Barulhos, ah os barulhos! Vozes, passos, pancadas, sussurros, rangidos, estalos. Bafos gelados na nuca. Lustres balançando sem vento.
Filmar e investigar na minha casa daria talvez uma temporada inteira de caça fantasmas.
Quando crianças eu e meu irmão dormiamos despencados um por cima do outro, armados com cruzes e brinquedos ao redor da cama.
Depois fomos para quartos separados mas às vezes dormiamos juntos por solidariedade.
Tinha o olhinho do mal espiando de dentro do armario. Naquela mesma porta apareceu invasão de formigas, abelhas e baratas em ocasiões diferentes. Só ali. Foi tri-dedetizada.
Já acordei sendo estrangulada por duas vezes e regularmente sentia puxões nos pés, até que aprendi a chutar e socar sem acordar. Funciona. É só não aceitar o bullying espiritual.
Meus pais? Nunca acreditaram na gente. Dormiam o sono dos justos. O terreno era de uma antiga fazenda de café do tempo da escravidão. Uma temporada, o açude que ficava bem perto começou a engolir um nadador por semana, até que fecharam a prainha. Fiquei vinte e três anos morando com os encostos.
Em outra casa, tinha um velho chato que saia do armario pra perturbar. Descobri que era o cara que construiu e morreu nela. Fiz um acordo com ele, que ele ficasse na edícula e eu na casa. Um dia meu cachorro apareceu enforcado na propria coleira. Ai eu fiquei doente e me mudei de lá. Não aguentei!
Fui pra uma casa novinha em folha, num terreno que estava vazio há muitos anos. Achei que não ia ter mais problemas, mas encosto e assombração é bicho apegado!
Quando o meu filho pequeno começou a se queixar das assombrações. Eu disse a ele: -Sabe o que você faz? Assim que dormir fique atento, quieto e desça o cacete de surpresa neles na primeira oportunidade!
Um dia ele me disse todo contente: -Mãe ontem matei um! E eu:-Matou o que menino?
Cheio de orgulho:-Um monstro!
Morri de orgulho, falei:- Agora vou te chamar pra me ajudar de noite, vamos quebrar tudo! Fazer um "limpa" nesta casa.
Ele passou um bom tempo sem reclamar e eu precisei perguntar como andavam as coisas.
Ele:- Tranquilo mãe! Quando aparece alguma coisa eu já parto pra cima e resolvo.
É fato que as assombrações precisaram mudar de estratégia pra chamar a atenção. Passaram a interagir com os eletronicos. Disparavam radios, relogios, ligavam computadores e até a TV no meio da noite.
Perturbavam meu agora falecido gato que as via e caçava por todo apartamento.
Agora eu moro num prédio novinho num lugar da cidade que já é habitado há 500 anos. Muita história aqui.
Teve um dia que eu acordei com o toque do meu antigo celular, pasmem,
no radio-relogio do meu marido no meio da madrugada. Ele também acordou irritado com o meu descuido. Lesada de sono procurei o aparelho até descobrir que ele estava desligado. Como a musiquinha foi parar no outro aparelho eu ainda não sei. Nunca mais repetiu a proeza.
Tem uma assombração do momento que atende pedidos de piscar luzes e responde perguntas de sim e não.
Rezei pra ir pra Luz. Não foi. Então azar dela, agora eu a ignoro solemente.
Às vezes derrubam coisas, aparecem no espelho do banheiro, ou tentam gerar pesadelos.
Agora somos três adultos enfastiados com a carência dos incorpóreos. Ninguém dá bola.
Monstro de verdade é aquele ficava babando embaixo da nossa cama. Bons tempos!