quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A bota

A bota

De neve. Com pelo de carneiro por dentro.
Meu marido que nunca me pergunta o que vestir e reclama quando peço pra se trocar, veio pedir opinião.
-Levo ou não levo a bota?
Eu pensando no peso dela, na trambolhice dela etc, fiquei na dúvida.
-Não sei, se não usar vai ser chato de carregar na mala. Mas se nevar vira tudo uma laminha nojenta e seu sapato social fica só na meleca, e molhado.
-Levo ou não levo?
Não querendo assumir essa responsabilidade e ouvir alguma reclamação depois, disse:
-Sei lá! E sai de fininho.
Ele levou. Choveu, nevou, elameou. Fomos num parque e ele ficou de fora porque estava de sapato social.
No dia seguinte viajamos para um castelo no campo e ele ficou na duvida se ia de bota: -Vou de bota hoje?
Eu:- Acho que vai ter laminha melequenta, mas não sei se vai ser um problema.
Ele:-Você não me respondeu. Vou ou não vou de bota?
E eu pensando na possível reclamação, só porque sugeri pra ir ou pra não ir. E se depois algo der errado? Respondi cheia do Espírito Santo: -Sei não...
-Fala ai! Vou ou não vou?
-Não vou falar, olhe pra fora e decida você mesmo!
Acho que estava inspirada. Ele vestiu a bendita bota. Decidiu sozinho. Pegamos o onibus e tal.
Assim que começamos a subir a pé pela entrada do castelo, ouvi "RRRRRROOOOOC!"
A sola do pé direito da bota dele descolou inteirinha. Agradeci ao meu anjo da guarda pela dica da boca fechada.
Uma japonesa idosa soltou uma risada histérica, do tipo:- Hiihihihihihihi! e o resto do grupo, abriu a boca pasmado:- Ohhhhhhhhhhh! Exceto pela velhota maluca, todos ficaram consternados.
Marido encarnou um troll. Estava com sangue nos olhos e fumaça nas orelhas.
Eu disse: -Deixa chegar lá em cima, eu peço fita adesiva e conserto pra você.
Ele jogou a sola descolada pra longe. Fui lá e catei com toda paciência.
Bem no portão, já conseguimos um rolo com o pessoal da manutenção e amarramos a sola de volta na bota o melhor possível, porque não tinha muita fita.
Mesmo assim a ponta da bota ficou com lábios. Estes faziam "blblblblbl" quando ele andava.
Então ele passou a arrastar o pé direito todo colado e resmungar irritado a cada passo.
Juro que não sabia se eu ria ou chorava, então tive que elevar o espírito e  manter a calma.
Claro que ele ficou mais lento, e acabou perdendo muito do tempo da visita ao castelo.
Quando conseguimos chegar no Coffee Shop já estava na hora de voltar para o onibus.
Ele estava tão bravo que resolveu comprar café mesmo assim, atrasado, correndo o risco de ser deixado pra trás. Eu e meu filho corremos na frente para implorar ao motorista do onibus para esperar por ele.
Alguns minutos depois ele desceu pelo caminho ladeado de sebes bem aparadas parecendo o Jack Nicholson no filme "O Iluminado". Mesma expressão facial, mesmo andar arrastado, mesmo cenário.
Só faltava a machadinha. Ainda bem que os japoneses se atrasaram mais do que ele.
Depois fomos almoçar em uma cidade medieval. Creiam, marido andou a cidade inteira para achar uma loja de sapatos e jogar a bota fora. Ô dó. Mancou daquele jeito o dia todo com um humor de cão.
Colocar o sapato novo ajudou um pouco a mudar o clima, mas não ficou cem por cento.
Quem já não perdeu uma sola, quebrou um salto ou arrebentou uma correia do calçado que atire a primeira pedra. Eu mesma, descolei parte da sandália andando no Shopping outro dia.O segredo é não perder a diversão e nem cair da pose.




Um comentário:

Os anjos acreditam em você!