sábado, 1 de fevereiro de 2014

Porta retratos

Porta retratos

Minha mãe coleciona. Ela mora numa casa enorme que é como uma galeria de gente. Tem porta retratos de todos os entes queridos em todas as fases da vida em todos os comodos exceto cozinha e banheiros.
Tem fotos da família espalhadas fora dos porta retratos também.
Ela preenche a casa vazia com nossas fotos, e aquece o coração.
Passei uns dias por lá, e foi como um flash back da minha própria vida só de andar pela casa.
Eu bebê, eu pequena, eu garota, eu mocinha, eu moçona, eu com ela, eu com meu pai, eu com meu marido, eu com meu filho, minha avó, meu irmão, meus sobrinhos e até com minha cunhada. E também eu sozinha.
Dezenas de eu sozinha. Entre os 25 e os 40 anos não se sabe a diferença. Mesmo morena ou loira, continuei com a mesma cara. Euzinha, bem na foto, sem idade definida.
Mas de um par de anos para cá eu mudei. Fiquei irreconhecível. Não por causa dos fios brancos, estou loira como era aos 37anos. Nem minha tintura pra cabelo mudou.
Acho que em cinco anos envellheci quinze. Como o "Retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde.
Não fiz pacto com diabo nem nada. Pelo contrário, foi minha vida super saudável que me trouxe uma coleção de doenças que parece aquelas bonequinhas russas Matrioshkas que ficam uma dentro da outra. Todo ano tenho uma nova embutida na antiga.
Nunca fumei, não bebo, como coisas saudáveis e antes de ficar completamente impossibilitada fazia exercícios regularmente. Agora nem sol posso pegar. Nenhum, virei vampiro. Derreto no sol.
Meu excesso sempre foi de trabalho e preocupação. Motivo pra ficar triste de sobra.
Como não sou vítima de nada, fui dando conta de tudo e gastei a boa aparência nas agruras da vida. Mas estou viva. Se eu fosse gato estaria já na décima segunda vida. Nem sete nem nove. Umas doze.
Voltando aos porta retratos, nenhuma mulher sabe o quanto é bonita até ficar mais velha. Ou doente. Ou os dois.
Não vou pedir pra minha mãe recolher aquelas fotos que me fazem lembrar como eu era. Vou amar a criança fofinha e a moça bonita que eu fui como filhas que nunca crescem nem adoecem, e muito menos envelhecem.
Vou tirar uma foto agora e colocar no meio das outras. Vou fazer isso todo ano. Atualizar.
Vou amar todas as mulheres que eu fui, sem inveja delas.
E lembrar que nunca eu estarei melhor do que agora, e me amar como estou hoje, cheia de gratidão.

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