sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Imunidade?

Imunidade?


Nasci com a minha toda errada e só foi piorando com o tempo.
O resultado disso é que agora eu tenho que domesticar essa entidade incorpórea que me assombra.
Chegou ao ponto de ter que suprimir, controlar, modular, colocar de castigo, tirar mesada, colocar senha no wifi,  mas nada esta adiantando.
Sutilmente o meu proprio sistema de defesa me detonou tanto que nem consigo raciocinar direito e me ajudar a sarar. Até o meu cérebro esta perdido na neblina.
Meu sistema imune é um antivírus enlouquecido. Está me formatando.
Quando Deus distribuiu fichinhas de Doenças Raras no período pré-encarnatório, eu cheguei antes, dormi no balcão pelo menos uma semana e fiquei com todas. Arranquei a página de Reumatologia do Cecil ( livro de Medicina Interna) e usei como menu. Quero essa, essa, essa aqui também.
Mas resolvi falar das maravilhas de ter uma Doença Autoimune ao invés de reclamar.
Pra começar é rara, e cara. Carésima, remédios que só vendendo o carro pra pagar. Só pra quem pode, morram de inveja.
Sempre inclui Corticosteróides na receita, e em grandes doses. Minha pele esticou tanto nas bochechas que não tenho flacidez nem rugas, e  não vou precisar de cirurgia plástica.
Também economizo no blush já que estou sempre com um tom vermelho no rosto.
Mudei de manequim pra maior e menor oito vezes em um ano. Agora tenho o guarda roupa mais eclético, variado e atualizado do que nunca. Varia de vestidinhos tubinho justos, a calças de malha para grávidas. Até meu pé mudou. Ficou tão inchado que aumentou um numero.
Se eu não adorasse sapatos, estaria reclamando. Mas tive que repor o estoque alegremente.
Eu era perfeitamente normolínea, simétrica e proporcional, agora sou maior em cima do que em baixo, dois manequins diferentes. Não vou precisar colocar silicone.
Não ter mais cintura é um mero detalhe, economizo nos cintos.
Mas legal mesmo foi o que aconteceu com meu cabelo, cortesia dos quimioterápicos.
Meu cabelo era liso com algumas ondas suaves, cheio e comprido. Caiu pra caramba.
Caiu tanto que achei que ia ficar careca e comprei duas perucas diferentes por prevenção.
Descobri que peruca é horrívelmente calorenta e me faz chorar de rir. Não consigo colocar uma e ficar séria. De verdade. É como se eu estivesse fantasiada. Mas agora sou proprietária de uma loura e uma morena. Se eu tivesse que usar, só ia sair de crachá porque todo mundo ia achar que meu marido estava tendo um caso.
Como meu cabelo não caiu o suficiente, só cortei bem curto e passei uma fase lidando com os "Crop Circles" que insistiam em aparecer de manhã cedo e sumiam com caçambas de agua e gel.
Depois de dois anos cresceu um pouquinho,  e ai pude constatar que meu cabelo não é mais liso. É crespo!
Passei minha infância fazendo cachinhos só para vê-los se desmancharem assim que eram soltos. Mas agora que a ditadura é a chapinha, modelador e outras violências capilares, eu possuo cachos indomáveis. Antes de morrer comida por meus anticorpos vou realizar meu sonho de criança: cachos!
Outro bônus imperdível é a depilação. Quase não faço, os pelos demoram tanto pra nascer e nascem tão fraquinhos que basta um olhar feio e eles desaparecem. A tintura no que restou de cabelo é quase permanente. Dura uma eternidade. Economizo no salão.
Economizo nas unhas também. Estão tão moles que não crescem e nem podem ser pintadas.
O incrível é que como a destruição ocorre de dentro pra fora, ninguém acredita que que você está realmente doente. Pensam que você colocou enchimento no sutiã, mudou o cabelo, exagerou no blush, está gravida de alienígenas, e até que é outra pessoa. Semana retrasada minha vizinha me perguntou se fazia tempo que mudei pro predio.
Outra vantagem é que só posso usar produtos cosméticos e de higiene hipoalergênicos  de altíssima qualidade, com Ph controlado, neutro. Coisa chique!
Sol, calor, frio , umidade e vento nem pensar! Sou uma Avenca! Meu ambiente é controlado!
O cara que veio limpar o ar condicionado split do meu quarto disse que foi soldado no quartel onde torturavam presos politicos durante a ditadura. Ele passou três dias entre o telhado e a varanda do meu quarto dissertando sobre os detalhes impensáveis de coisas que eu nunca perguntei.
No ultimo dia ele olhou bem pra mim e perguntou: -A senhora é doente?
Nada como um olhar de especialista não?